Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
A Segurança, a Higiene e a Saúde no Trabalho
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A existência de condições de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho constitui o requisito essencial para que qualquer trabalhador se sinta bem no seio de uma organização, o que, necessariamente, se traduz numa postura positiva perante o trabalho e na melhoria do desempenho profissional. Deve constituir prioridade de execução de qualquer organização proporcionar a todos os seus trabalhadores condições de trabalho que garantam a sua realização pessoal e profissional.
A evolução de ordem técnica, económica e social dos contextos organizacionais tem vindo a gerar novos riscos ocupacionais, passíveis de romper o equilíbrio físico, mental e social do trabalhador, e uma consequente necessidade de desenvolver técnicas e metodologias para o seu controlo efectivo. O velho slogan da NASA “failure is not an option” (falhar não é opção) revela-se apropriado para descrever o desafio colocado aos sistemas organizados modernos, no tocante à prevenção de riscos profissionais. Para um público cada vez mais consciente e informado, os problemas ligados à segurança, à saúde e ao ambiente são cada vez menos aceitáveis. Muito embora ninguém acredite que a perfeição seja possível, não deixa de ser notável, no panorama actual, uma crescente procura de condições óptimas de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho.
Nesta perspectiva se compreende o relevo particularmente significativo que o ordenamento jurídico-constitucional português reservou à temática da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, bem como o subsequente emergir, no contexto organizacional nacional – tanto no sector público como no privado –, de Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, com a missão explícita de polarizar a gestão da prevenção de riscos profissionais.
Neste sentido, a prevenção dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais constitui-se como um importante aspecto social para a organização e para a própria política de saúde de um país, na perseguição de uma crescente e constante melhoria das condições de vida da população. É neste prisma que a Segurança, Saúde e Ambiente são, actualmente, considerados pela Organização das Nações Unidas e pela União Europeia como sendo factores indicadores das condições de trabalho, no sentido lato da expressão.
Ainda sob outro ângulo, a Segurança, Saúde e Ambiente apresentam-se como excelentes soluções económicas, dado que tendem a reduzir os acidentes, a abstinência laboral e aumentarem a satisfação no trabalho, acarretando benefícios económico-financeiros directos e indirectos para a gestão.
A Segurança no Trabalho diz respeito ao conjunto de medidas técnicas, educacionais, médicas e psicológicas empregues para prevenir acidentes, quer eliminando as condições inseguras da envolvente, quer sensibilizando e instruindo os trabalhadores para a adopção de práticas preventivas.
Já a Higiene no Trabalho refere-se ao conjunto de normas e procedimentos que visa a protecção da integridade física e mental do trabalhador, preservando-o dos riscos de saúde inerentes às tarefas do cargo e ao ambiente físico onde são executadas. Tem um carácter eminentemente preventivo, na medida em que objectiva a saúde e o conforto do trabalhador, designadamente, mediante o diagnóstico e a prevenção das doenças ocupacionais, evitando assim que este se ausente provisória ou definitivamente do trabalho. Envolve, pois, o estudo e controlo das condições ambientais de trabalho que influenciam o comportamento humano.
A Saúde no Trabalho, por seu turno, concerne o domínio da vigilância médica (exames médicos individuais de avaliação da saúde), estendendo-se igualmente ao controlo dos elementos físicos e psicológicos que possam afectar a saúde dos trabalhadores.
A avaliação, o controlo e a prevenção dos aspectos do trabalho passíveis de prejudicar a integridade física e psicológica dos trabalhadores cabem, nas organizações modernas, aos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, que devem polarizar e articular um conjunto de instrumentos, meios técnicos e procedimentos orientados para o fim último de atingir níveis de segurança, higiene saúde e bem-estar elevados.
Até para a semana. Directo à Questão.
Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
A Reunião dos Ricos e a Reunião dos Pobres
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Arranca hoje, em Davos, na Suíça, a reunião dos ricos, o Fórum Económico Mundial. Irónico é que é também esta semana, desde dia 25 e até dia 31, que decorre, no Brasil, este ano em várias cidades, a reunião dos pobres, o Fórum Social Mundial. Reflectimos sobre as diferenças entre estes dois eventos, que parecem ter apenas em comum a data em que se realizam. Será?
O Fórum Económico Mundial é uma organização sem fins lucrativos sedeada em Genebra. É famoso pelas reuniões anuais realizadas na estância de esqui de Davos, nos Alpes Suíços, nas quais reúne os principais líderes empresariais e políticos, bem como intelectuais e jornalistas seleccionados para discutir as questões mais urgentes que o mundo enfrenta. O Fórum Económico Mundial de Davos, onde Thomas Mann escreveu "A Montanha Mágica", é encarado pelos especialistas como o "fórum dos fóruns no mundo económico". É um encontro mundial de seis dias, que tem lugar há 30 anos, no final de Janeiro, onde líderes mundiais do mundo económico, político e académico se juntam para definir, discutir e lançar novas ideias e desafios. O Fórum de Davos é uma fundação suíça financiada por mais de mil empresas multinacionais. Este tipo de reuniões também se realiza noutras regiões do mundo, incluindo a Ásia, África e América Latina.
O Fórum Económico Mundial nasceu em 1970 quando Klaus Schwab, professor de Economia, tomou a iniciativa de convocar os chefes de Estado da Europa para um encontro informal na vila de Davos. Ao longo de três décadas, a modesta conferência europeia transformou-se numa instituição global capaz de aglomerar a elite mundial para se pronunciar sobre os grandes desafios da humanidade. O lema do Fórum de Davos é mesmo "melhorar a condição de vida no mundo". Antes de mais, pretende dar uma oportunidade à nata da intelectualidade para dialogar entre si e pôr em prática soluções que conduzam ao progresso económico.
Famosas são também as manifestações anti-globalização que, apesar de proibidas pelas autoridades suíças, continuam a marcar estas reuniões anuais. Para os manifestantes, a cimeira é símbolo de tudo o que de pior há na globalização: um mercado global e o aumento da importância do comércio internacional. Precisamente as ideias-chave que os organizadores consideram que definem melhor o fórum.
Já o Fórum Social Mundial é um evento organizado por movimentos sociais de diversos continentes, com objectivo de elaborar alternativas para uma transformação social global.
O número de participantes tem crescido nas sucessivas edições do Fórum Social Mundial: de 10 000 a 15 000 no primeiro fórum, em 2001, a cerca de 120 000 em 2009, com predominância de europeus, norte-americanos e latino-americanos, excepto em 2004, quando o evento foi realizado na Índia.
Ao contrário do Fórum Económico, que reúne uma elite mundial fechada, o Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação de vontades. Recebe entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo e estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra.
Em Davos, portanto, decorre a reunião dos ricos, das elites e dos representantes do poder económico global. Enquanto no Brasil, decorre a reunião dos pobres, dos representantes da sociedade civil e dos movimentos sociais.
Enquanto o lema do Fórum de Davos é "melhorar a condição de vida no mundo”, o lema do Fórum Social Mundial é “Um outro mundo é possível”. Parece o mesmo. Mas não é. Quem tem o poder para mudar o mundo não o promete.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
O Grande Tema para a Nova Década: O desafio das redes sociais (II)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Myspace. Facebook. Hi5. Blogosfera. Orkut. YouTube. Twitter. Flickr. Second Life. Linkedln. São expressões que fazem cada vez mais parte do quotidiano de milhões e milhões de pessoas, instituições e empresas. Qual a influência deste tipo particular de fenómeno da era digital? Prosseguimos hoje a nossa reflexão sobre o desafio das redes sociais da Internet, aquele que é, em nossa opinião, o maior dos desafios com que se depara a humanidade na segunda década do século XXI.
Nos últimos dias, registou-se algo absolutamente insólito: o número de mensagens no Twitter ultrapassou o número de seres humanos. Na altura da notícia, havia 6.791 milhões de pessoas na Terra e 6.930 milhões de tweets, ou seja, o número de mensagens colocadas naquela rede social excede o número de pessoas no mundo. Mas há mais números impressionantes. O número de utilizadores das redes sociais na internet é de tal grandeza que, se todos habitassem no mesmo país, este seria o 3º mais populoso do planeta. No caso português, segundo a Comscore, somos o 3º país europeu com maior penetração das redes sociais.
Na actualização de Dezembro do estudo do blogger italiano Vincenzo Cosenza “World Map of Social Networks”, é dito que o Facebook continua a sua colonização do mundo com mais de 350 milhões de utilizadores. É a rede social líder em 100 dos 127 países analisados. As excepções são a Índia e o Brasil, onde domina o Orkut. E o Hi5, que em Dezembro era líder nos Camarões, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México e Nicarágua, Perú, Portugal, Roménia, Tailândia e Mongólia.
As redes sociais constituem verdadeiros espaços de partilha de afectos e de estabelecimento de pontes de proximidade entre as pessoas. Uma partilha de textos, de opiniões, de músicas, de fotografias, de vídeos, enfim, uma efectiva partilha de conhecimento. E a uma escala universal. Não é por acaso que praticamente todas as grandes marcas de consumo globais já estão nas redes sociais. O mesmo é válido relativamente às instituições e organizações públicas.
Ao nível da comunicação social, as redes sociais causaram uma verdadeira revolução. O jornalismo deixou de deter, em exclusivo, o poder de moldar a opinião pública. As redes sociais da internet, e em especial os blogues, são os principais responsáveis pela criação de um verdadeiro novo paradigma a este nível. Este novo, rápido e eficiente veículo de circulação da informação revolucionou maneiras de pensar e criou novos “fazedores de opinião”. A imprensa escrita foi, sem dúvida, a principal vítima desta circulação de informação a uma velocidade e por canais nunca antes vistos. No entanto, parece-nos que não perdeu o seu lugar no quotidiano dos cidadãos, muito pelo contrário. Teve foi de adaptar-se a esta nova realidade. Não é por acaso que os blogues e as páginas do Twitter mais famosas pertencem a jornalistas ou a colunistas de jornais famosos. Não é por acaso que a maioria das publicações escritas tem o seu sítio na net ou a sua própria rede social. A comunicação social nunca mais voltará a ser a mesma.
É também inevitável uma mudança significativa ao nível do marketing. Toda a comunicação com o consumidor e a relação com os seus hábitos de compra ganha um novo protagonismo. O cargo de director de comunicação para a blogosfera pode começar a fazer parte da estrutura de direcção das maiores empresas.
Claro que estas redes sociais não são imunes a perigos e a ameaças, sobretudo no que concerne à violação de privacidade e à criação de verdadeiros vícios. As equipas de gestão tenderão mesmo a limitar aos colaboradores o uso de redes sociais como forma de aumentar a produtividade. Mas não podemos fazer delas um bicho de sete cabeças. Elas estão aí e para ficar. Cada vez com um maior peso social.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
O Grande Tema para a Nova Década: O desafio das redes sociais (I)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na última semana, foi noticiado que o Facebook ultrapassou pela primeira vez o Hi5 em número de visitas diárias em Portugal, mas não em número de utilizadores. Falamos de toda uma nova realidade. As redes sociais, que povoam a Internet e também cada vez mais o dia-a-dia de todos nós. O Myspace, o Facebook, o Hi5, a blogosfera, o Orkut, o YouTube, o Twitter, o Flickr, o Second Life ou o Linkedln, fazem parte do quotidiano de milhões e milhões de pessoas, instituições e empresas. Estas redes constituem provavelmente o maior desafio da nova década. Qual a influência deste tipo particular de fenómeno da era digital no quotidiano de cada um de nós? Discutimos nas nossas próximas reflexões o desafio das redes sociais na segunda década do século XXI.
2008. Campanha de Barack Obama rumo à presidência dos Estados Unidos da América. Nunca antes um político beneficiou tanto do poder das redes sociais. Se é verdade que não foi o pioneiro - a Jonh Kerry devem ser dados os louros - teve o mérito de ter sido o que melhor a soube aproveitar em seu benefício – através delas angariou mais de 500 milhões de dólares, permitiu o contacto entre apoiantes em diferentes pontos dos EUA, formou inúmeros grupos de trabalho local, colocou mais de 1800 vídeos promocionais no canal próprio Youbama e mais de 20 mil fotografias de campanha no Flick, sem esquecer o movimento cívico “do-it-yourself” com 2 milhões de apoiantes através da rede social própria “mybarackobama.com”. No dia 4 de Novembro, o decisivo dia das eleições norte-americanas, imediatamente antes de sair para Chicago, onde fez o seu discurso de vitória à nação, Barack Hussein Obama terá ligado o seu computador para escrever o seguinte: "Vou agora para o Grant Park falar com todos os que estão lá reunidos, mas queria escrever-te primeiro. Acabámos de fazer história. E eu não quero que te esqueças como o fizemos. Temos ainda de fazer muito para voltar a por o nosso país nos eixos. Vou voltar a contactar-te sobre o que se segue." Foi um dos primeiros actos do novo Presidente dos Estados Unidos da América. Minutos depois, todos os que se tinham registado na página de Obama na internet receberam esta mensagem no seu email. A campanha estima que tivessem sido cerca de 3,1 milhões em todo o mundo.
Mas há mais.
Recentemente, uma página de apoiantes de Manuel Alegre aberta no Facebook confundiu jornalistas, que noticiaram um arranque da candidatura oficial daquele político. A página intitula-se “Manuel Alegre para Presidente da República em 2011″, foi elaborada por pessoas ligadas ao PS e a Manuel Alegre e entre os primeiros “fãs” estão nomes que o apoiaram anteriormente, mas nenhuma indicação no grupo permite concluir tratar-se de uma página oficial. O próprio jornal i chegou a afirmar: “o candidato presidencial Alegre já está nas redes sociais“. Contudo, à comunicação social, Manuel Alegre já confirmou que não esteve na origem da criação da página, que serve apenas para reunir apoiantes do ex-candidato e possível recandidato a Presidente da República. Contudo, o seu peso na decisão de Alegre deverá ser inegável.
Mas há mais.
Decorre a maior e mais exigente competição de todo o terreno à escala mundial. O Dakar 2010 é na Argentina e no Chile, mas a prova do piloto português Carlos Sousa está a ser noticiada em tempo real na Internet, usando, claro, as redes sociais. É assim que chega a informação ao público e feito muito do contacto com jornalistas e publicações. No Twitter, a conta de Carlos Sousa faz o acompanhamento das etapas do Dakar em directo, fornecendo pormenores e informações também de carácter noticioso. Já na página do Facebook do piloto existe um envolvimento mais pessoal, não apenas porque Carlos Sousa já faz, ele próprio, entradas na conta, mas também na medida em que as declarações são reproduzidas com grande amplitude e num registo multimédia.
São exemplos do peso e da importância das redes sociais da internet nos dias de hoje. Na próxima semana, prosseguimos a nossa reflexão sobre aquele que consideramos o maior desafio para a nova década.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
A importância de Louis Braille e do seu sistema de leitura para cegos
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A 6 de Janeiro de 1852, faz hoje 158 anos, falecia, vitima de tuberculose, Louis Braille, criador do sistema de leitura para deficientes visuais.
Braille nasceu a 4 de Janeiro de 1809, numa pequena aldeia francesa chamada Coupvray, decorrendo ainda actualmente um vasto programa comemorativo do bicentenário do seu nascimento. Perdeu a visão aos três anos de idade, em consequência de um acidente ocorrido enquanto brincava com apara de couro na oficina de seu pai.
Em face da sua enorme capacidade de aprendizagem, aos 10 anos ingressou no Institut Royal des Jeunes Aveugles de Paris. Na Escola de Cegos Valentin Hauy, destacou-se na aprendizagem de órgão, tornando-se organista de profissão. Mais tarde, assumiu a direcção da escola que o acolheu, onde veio inclusive a leccionar, tendo ainda iniciado muitos jovens deficientes visuais nas lides musicais.
Na década de 20 do século dezanove, Louis Braille terminou o desenvolvimento da sua técnica de escrita e leitura. O famoso sistema de escrita em Braille surgiu a partir da combinação de seis pontos, os quais, utilizados em diferentes posições, permitiram a criação de um alfabeto com caracteres em relevo. Foi inspirado num código, inventado pelo Capitão do exército francês, Charles Barbier, que o utilizou para comunicar com os seus soldados, em tempo de guerra, consistindo o mesmo código na combinação de traços e de pontos em relevo, a fim de não atrair as atenções do inimigo.
De uma actualidade impressionante, com excepção de algumas pequenas melhorias, o sistema de leitura de Braille mantém-se quase inalterável até aos dias de hoje. O método, que adoptou o nome do seu autor, foi sendo adaptado à generalidade das línguas e grafias, permitindo aos deficientes visuais aceder à escolarização normal, à informação, contribuindo, desta forma, para a sua integração social.
O Sistema Braille foi uma janela que se abriu no vasto universo da cultura, permitindo que as pessoas cegas nele pudessem penetrar, através da escrita e da leitura. Até então, outros sistemas haviam sido utilizados, nomeadamente, o uso de letras móveis, as quais eram de dimensões bastante ampliadas, o que dificultava o seu manuseamento na construção de palavras, não sendo os seus resultados tão eficazes, em relação ao esforço despendido.
Braille faleceu em 1852, vítima de doença, tendo dedicado toda a sua vida à defesa dos direitos dos cegos, que na altura eram considerados por muitos como um peso morto para a sociedade. Hoje, o Braille continua ser utilizado em conjunto com os mais evoluídos equipamentos e mais modernas tecnologias, mostrando-se sempre eficiente. Uma porta aberta à inclusão de um grupo específico de incapacidade, que, apesar das limitações, pode assim participar de uma forma mais activa nessa sociedade tantas vezes injusta para com os portadores de deficiência visual.
Há dois séculos atrás, Louis Braille abria a janela para um novo futuro de muitos cidadãos em todo o mundo.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
Então é Natal…
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
De António Gedeão, “Dia de Natal”.
Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá
-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
A Propósito da “Nova” Europa do Tratado de Lisboa: Reflexões sobre a construção europeia (II)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A propósito de toda uma “nova” Europa que se ergue com o recém-adoptado Tratado de Lisboa, prosseguimos esta semana a nossa reflexão sobre o processo de construção europeia.
Em 1981 e em 1986, as adesões à União, primeiro da Grécia, depois da Espanha e de Portugal, reforçaram o flanco sul da Comunidade, tornando mais imperativa a execução de programas estruturais destinados a reduzir as disparidades de desenvolvimento económico entre os Doze. Paralelamente, a Comunidade afirmou a sua posição no plano internacional, ao reforçar as relações contratuais estabelecidas com os países do Sul do Mediterrâneo e ainda com os países da África, das Caraíbas e do Pacífico, membros associados da Comunidade Europeia no quadro das sucessivas convenções de Lomé, entre 1975 e 1989.
O "europessimismo" ou “eurocepticismo”, que se propagou no início dos anos 80, alimentado quer pelos efeitos da crise económica mundial quer por difíceis debates a nível interno sobre a repartição dos encargos financeiros, deu lugar a uma nova esperança de relançamento da dinâmica europeia, a partir de 1985. Com base num "livro branco", apresentado em 1985 pela Comissão presidida por Jacques Delors, a Comunidade decidiu levar a efeito, até 1 de Janeiro de 1993, a construção do grande mercado interno. Este objectivo foi consagrado no Acto Único Europeu assinado em Fevereiro de 1986.
A queda do Muro de Berlim, efeméride que agora celebra 20 anos, seguida da reunificação alemã em Outubro de 1990, e a democratização dos países da Europa Central e Oriental libertados da extinta União Soviética, a partir de 1991, transformaram profundamente a estrutura política do velho continente. O Tratado de Maastricht, que entrou em vigor em 1 de Novembro de 1993, fixou um programa ambicioso para os Estados-membros: União Monetária até 1999, novas políticas comuns, cidadania europeia, política externa e de segurança comum, segurança interna. A cláusula de revisão contida no Tratado da União Europeia levou os Estados-membros a negociar um novo Tratado, assinado em Amsterdão em 2 de Outubro de 1997, que adaptou e reforçou as políticas e os meios da União, nomeadamente nos domínios da cooperação judiciária, da livre circulação das pessoas, da política externa e da saúde pública.
Em 1 de Janeiro de 1995, três novos países aderiram à União Europeia. A Áustria, a Finlândia e a Suécia enriqueceram a União pela sua especificidade e pela abertura de novas dimensões no espaço da Europa Central e da Europa Setentrional. Em 2005, é concretizado o alargamento aos dez países da Europa Central e Oriental e a Chipre, com os quais o Conselho Europeu do Luxemburgo decidiu iniciar as negociações de adesão na Primavera de 1998. A estes, juntaram-se A e B, em 2007.
Não é possível enfrentar este desafio de uma Europa a 27 sem esforços. É este o desafio do Tratado de Lisboa, recentemente assinado pelos Estados-membros. Como primeira potência comercial mundial, a União está presentemente a dotar-se dos instrumentos que lhe permitem afirmar a sua identidade na cena internacional e a sua ambição é conseguir ter uma política externa e de segurança comum, sem esquecer os desafios sociais, consagrados na Cimeira de Lisboa, em Março de 2000. As principais resoluções traçadas na capital portuguesa no início do milénio passam por uma política comum para a sociedade da informação, pela renovação do modelo social europeu, pela generalização da formação ao longo da vida e pela valorização do diálogo social e organização de parcerias com a sociedade civil.
Novamente em Lisboa, a Europa renasce hoje com um Tratado que refunda todo o conceito de cidadania e participação europeias. O denominado Tratado Reformador Europeu, assinado em 2008 em Lisboa pelos 27 Estados-membros, parece ser – finalmente – a resposta possível (embora longe da ideal) para o impasse criado desde a rejeição de uma Constituição Europeia. Uma solução integradora, conciliadora, mas sofrível, conseguida então sob a batuta da Presidência Portuguesa da União Europeia.
Mais de meio século de construção europeia acabou por marcar profundamente a história do continente e a mentalidade dos seus habitantes. As ideias de identidade e de coesão europeias, assentes num diálogo permanente entre os interesses nacionais e o interesse comum, respeitando as diversidades nacionais e valorizando, ao mesmo tempo, aspectos que podem conferir à União uma identidade própria, não perderam ao longo dos anos o seu valor inicial. Identidade e coesão europeias que representam, no fundo, a vitória do espírito europeu, espírito esse que, hoje mais do que nunca, é indispensável para a construção de um novo futuro.
Até para a semana. Directo à Questão.
Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
A Propósito da “Nova” Europa do Tratado de Lisboa: Reflexões sobre a construção europeia (I)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A propósito de toda uma “nova” Europa que se ergue com o recém-adoptado Tratado de Lisboa, reflectimos esta semana sobre as etapas de construção europeia, passado, presente e futuro.
Antes de tomar a forma de um verdadeiro projecto político comum e de se tornar um objectivo permanente da política governamental dos Estados-membros, a ideia de uma Europa una, em termos históricos, existia apenas no círculo restrito dos filósofos e dos visionários. A perspectiva dos Estados Unidos da Europa, de acordo com o modelo de Victor Hugo, correspondia a um ideal humanista e pacifista que veio a ser brutalmente renegado pelos trágicos conflitos que dilaceraram o continente durante a primeira metade do século XX. Foi preciso esperar pelas reflexões germinadas no seio dos movimentos de resistência ao totalitarismo, durante a Segunda Guerra Mundial, para ver emergir o conceito de uma organização do velho continente capaz de ultrapassar os antagonismos nacionais.
Altiero Spinelli e Jean Monnet, em 1950, são os fundadores das duas principais correntes de pensamento que deram corpo ao processo de integração comunitária. Por um lado, o projecto federalista, assente no diálogo e numa relação de complementaridade entre os poderes locais, regionais, nacionais e europeus e, por outro, o projecto funcionalista, orientado no sentido da delegação progressiva de parcelas de soberania, do plano nacional para o plano comunitário. Estas duas teses convergem hoje em dia, na convicção de que, a par dos poderes nacionais e regionais, deve existir um poder europeu assente em instituições democráticas e independentes, capazes de uma gestão mais eficaz do que a que resultaria de uma acção isolada de cada Estado.
A União Europeia, tal como a conhecemos hoje, é o resultado dos esforços empreendidos desde meados do século XX pelos impulsionadores da Europa comunitária. O Tratado de Paris, que em 1951 instituiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (conhecida como CECA), e, por outro lado, os Tratados de Roma, que em 1957 criaram a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom), com as alterações neles introduzidas em 1986 pelo Acto Único Europeu, em 1992 pelo Tratado da União Europeia assinado em Maastricht, em 1997, pelo Tratado de Amsterdão, e, já em 2008, pelo Tratado de Lisboa, constituem as bases constitucionais desta União. Uma União da qual emana uma legislação própria que se aplica directamente aos cidadãos europeus e que cria direitos específicos em benefício destes últimos, interferindo no quotidiano diário dos habitantes do espaço europeu.
Tendo-se limitado, na sua primeira fase, à criação do mercado comum do carvão e do aço entre os seis Estados fundadores (França, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Itália), a Comunidade revelou-se, antes de mais, como uma organização promotora de paz, cabendo-lhe o mérito de ter conseguido reunir os vencedores e os vencidos da Segunda Grande Guerra, num quadro institucional único.
A partir de 1957, os seis Estados-membros tomaram a decisão de construir uma comunidade económica assente na livre circulação de trabalhadores, bens e serviços. Os direitos aduaneiros sobre os produtos industriais viriam a ser totalmente eliminados em 1 de Julho de 1968, enquanto as políticas comuns, em especial a política agrícola e a política comercial, viriam a ser instauradas ao longo dessa década.
Os êxitos alcançados pelos Seis levaram o Reino Unido, a Dinamarca e a Irlanda a juntar-se-lhes após difíceis negociações a que a França do General de Gaulle opôs o seu veto por duas vezes - em 1961 e 1967. O primeiro alargamento, que em 1973 fez passar de seis para nove o número de países membros da Comunidade, foi acompanhado de um aprofundamento das suas atribuições, mediante a criação e a execução de novas políticas.
Desde o início da década de 70 que se tornava imperiosa uma convergência das economias e a criação de uma união monetária, já que a suspensão da convertibilidade do dólar em ouro inaugurava uma era de grande instabilidade monetária a nível mundial, agravada pelos efeitos dos choques petrolíferos de 1973 e 1979. A criação do Sistema Monetário Europeu, em 1979, aquele que foi o primeiro passo para a moeda única, contribuiu para a estabilização das relações cambiais, inspirando aos Estados-membros políticas de rigor que permitiam manter laços de solidariedade entre todos e a observância das regras próprias de um espaço económico aberto.
Na próxima semana, prosseguiremos a nossa reflexão sobre os novos e velhos desafios da Europa.
Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
Aniversário da Morte de Almeida Garrett
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A 9 de Dezembro de 1854, faz hoje precisamente cento e cinquenta e cinco anos, morria em Lisboa o escritor e dramaturgo romântico, Almeida Garrett.
Garrett nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799. Filho segundo do selador-mor da Alfândega do Porto, passa a adolescência na ilha Terceira. Em 1816, tendo regressado ao continente, inscreve-se na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Leis, sendo aí que entra em contacto com os ideais liberais. É na cidade dos estudantes que organiza uma loja maçónica, frequentada por alunos da Universidade.
Participa entusiasticamente na revolução de 1820 e, enquanto dirigente estudantil e orador, defende o vintismo com ardor escrevendo um Hino Patriótico recitado no Teatro de São João. Em 1821 estabelece-se em Lisboa, onde continua a publicar escritos patrióticos, concluindo a Licenciatura em Novembro deste ano. Em 11 de Novembro de 1822, casa com Luísa Midosi.
A Vilafrancada, o golpe militar de D. Miguel que, em 1823, acaba com a primeira experiência liberal em Portugal, leva-o para o exílio. Estabelece-se em Março de 1824 no Havre, cidade portuária francesa na foz do Sena, mas em Dezembro está desempregado, o que o leva a ir viver para Paris. De 1828 a 1831 vive em Inglaterra, indo depois para França, onde se integra num batalhão de caçadores, e mais tarde, em 1832, para os Açores integrado na expedição comandada por D. Pedro IV. É por terras açorianas que se transfere para o corpo académico, sendo mais tarde chamado, por Mouzinho da Silveira, para a Secretaria de Estado do Reino.
Em 1838 é nomeado cronista-mor do Reino, organizando logo no princípio de 1839 um curso de leituras públicas de História. É entretanto eleito deputado nas eleições para a nova Câmara dos Deputados cartista. No ano de 1843 começa a publicar, na Revista Universal Lisbonense, as Viagens na Minha Terra, descrevendo a viagem ao vale de Santarém começada em 17 de Julho. Anteriormente, em 6 de Maio, tinha lido no Conservatório Nacional uma memória em que apresentou a peça de teatro Frei Luís de Sousa, fazendo a primeira leitura do drama. São duas das suas mais emblemáticas obras.
Com o fim do Cabralismo e o começo da Regeneração, em 1851, Almeida Garrett é consagrado oficialmente. É nomeado sucessivamente para a redacção das instruções ao projecto da lei eleitoral, como plenipotenciário nas negociações com a Santa Sé, para a comissão de reforma da Academia das Ciências, vogal na comissão das bases da lei eleitoral, e na comissão de reorganização dos serviços públicos, para além de vogal do Conselho Ultramarino, e de estar encarregado da redacção do que irá ser o Acto Adicional à Carta. Em 25 de Junho é agraciado com o título de Visconde, em duas vidas.
Em 1852 é eleito novamente deputado e, mais tarde, ministro dos Negócios Estrangeiros. Morre em 9 de Dezembro de 1854 devido a um cancro de origem hepática, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres.
Evocamos Garrett com um poema intitulado “Beleza”, uma homenagem ao amor e ao belo, incluída na colectânea “Folhas Caídas”.
Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.
Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.
Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:
É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.
Até para a semana. Directo à Questão.
Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
O Caso Camarate: Ainda o mistério em torno da morte de Francisco Sá Carneiro
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Passam vinte e nove anos sobre a morte de Francisco Sá Carneiro, ex-primeiro-ministro de Portugal. Quase três décadas sobre o acontecimento, permanecem todas as dúvidas e interrogações sobre aquele que ficará para a história como o “Caso Camarate”.
Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro foi primeiro-ministro durante cerca de onze meses, em 1980. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e exerceu a advocacia no Porto. Foi um dos fundadores da Cooperativa Cultural Confronto e director da Revista dos Tribunais. Deputado independente, pertenceu à chamada ala liberal de 1969 a 1973. Após o golpe militar de 25 de Abril de 1974, foi um dos fundadores do PPD, presidindo seus destinos. Fez parte do primeiro governo provisório como ministro-adjunto.
Líder do PSD, a nova denominação do PPD, com o CDS e o PPM constituiu em 1979 a Aliança Democrática, conhecida como AD, que venceu as eleições intercalares. Com isso, ascendeu a chefe do Governo. Obteve a maioria absoluta nas eleições de 5 de Outubro de 1980. Faleceu em 4 de Dezembro desse ano, vítima de um acidente de aviação, com um Cessna, em Camarate, quando se dirigia para o Porto, a fim de tomar parte num comício de apoio a António Soares Carneiro, candidato a Presidente da República pela AD. Uma morte envolvida em polémica. Um mero acidente? Um atentado? A dúvida ainda hoje permanece.
O Caso Camarate nunca foi a julgamento. Em causa está um dos mais negros e pior explicados eventos da história recente portuguesa. Em 1991, uma Comissão Parlamentar criada na Assembleia da República para o efeito declarou reiteradamente, em modo tendencialmente unânime, após apuradas e cuidadosas investigações, que existiam fortes indícios de ocorrência de crime em Camarate e que os autos deveriam ser levados a julgamento. No entanto, o caso não seguiu para julgamento logo em 1991, nem sequer em 1995, quando a Comissão Parlamentar de Inquérito concluiu os seus trabalhos.
Neste tipo de casos, diz o Direito, só o tribunal de julgamento poderia, em definitivo, apreciar os factos apurados e declarar a ocorrência de crime, determinando em simultâneo a responsabilidade dos indiciados. Foi este passo fundamental da Justiça Portuguesa que foi sucessivamente impedido, ao arrepio de repetidas inquirições parlamentares e respectivas recomendações, para averiguação e estabelecimento das causas e circunstâncias das mortes.
No final de Novembro de 2006, José Esteves, antigo segurança de Sá Carneiro, garantiu, numa entrevista publicada pela revista Focus, que o ex-primeiro-ministro tinha sido assassinado, chegando a confessar-se como o fabricante da bomba que fez explodir o Cessna. O advogado dos familiares das vítimas do Caso Camarate, Ricardo Sá Fernandes, sublinhou na altura que era “a primeira vez que alguém assumia expressamente a autoria do atentado”. Contudo, como o caso já se encontrava prescrito, o então Ministro da Justiça, Alberto Costa, afirmou que o Governo não avançaria com qualquer medida no sentido de levar o caso a julgamento.
Passaram esta sexta-feira vinte e nove anos sobre o brutal acidente. No entanto, o mistério sobre o caso persiste, por entre um rol de suspeitas e inúmeras teorias da conspiração. Muitas dúvidas, uma única certeza. Sá Carneiro, um ilustre servidor do Estado Português, não merecia tudo o que esse Estado tem (ou sobretudo não tem) feito pela resolução de mais um dos muitos casos que ensombram a Justiça portuguesa.
Até para a semana. Directo à Questão.