Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Vinte Anos Sobre a Queda do Muro de Berlim
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
No dia 9 de Novembro de 1989, há vinte anos atrás, caia o muro de Berlim, e com ele era desmoronado definitivamente o império soviético.
Construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961, dele faziam parte mais de 66 quilos de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. O muro provocou a morte a 80 pessoas identificadas, 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas de o atravessar.
Desde que foi construído, até 1989, data da sua queda, o muro de Berlim foi o símbolo da separação dos blocos capitalista e comunista e da «Guerra Fria». Era o ponto máximo da rivalidade das duas potências.
Contudo, nos finais da década de oitenta do século XX, começou o redespertar das nacionalidades, com a desagregação de alguns países como a Checoslováquia e a Jugoslávia, e também o desejo de reunificação das duas Alemanhas. Os enormes fluxos migratórios da Alemanha de Leste para a Alemanha de Oeste, durante o verão de 1989, tornaram-se impossíveis de controlar. Por isso, a 9 de Novembro de 1989, teve que ser autorizada a livre circulação entre as duas partes de Berlim, e como consequência a destruição do muro. Nessa noite os alemães de um e de outro lado da cidade subiram e dançaram em cima dele. Reinava a alegria, todos festejavam, enquanto vários faixas do muro iam sendo cortadas e deitadas abaixo.
Nesse momento histórico que hoje recordamos, não se deitava abaixo apenas uma parede: a queda do muro de Berlim significava a queda dos regimes comunistas, o fim da Guerra Fria e de toda a tensão mundial e a abertura ao mundo. Na euforia, muita gente não previu as futuras dificuldades por que a Alemanha iria atravessar: fecho de muitas empresas, desemprego, instabilidade, o que viria a despertar movimentos político-sociais, como o neonazi.
Pouco depois, em 1990, as duas Alemanhas reunificaram-se. Para isso contribuiu a ascensão de Gorbatchëv ao poder e o desmoronamento da sociedade Leninista, com a descentralização estatal.
Ainda hoje há quem ande, com saudades, nos escombros, a tentar juntar as pedras.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Massacre de Santa Cruz: Dezoito anos depois
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A 12 de Novembro de 1991, faz amanhã precisamente dezoito anos, no cemitério de Santa Cruz, em Dili, tropas indonésias que ocupavam indevidamente o território de Timor-Leste, dispararam indiscriminadamente contra civis, durante uma homenagem fúnebre a um jovem abatido por elementos daquelas forças. Dezenas de pessoas morreram neste ataque. As imagens deste massacre, ao serem apresentadas nas televisões de todo o mundo, sensibilizaram a comunidade internacional para a dramática situação do povo timorense e contribuíram decisivamente para o processo de independência daquele território.
Foi então no dia 12 de Novembro do ano de 1991 que o exército indonésio disparou sobre manifestantes que homenageavam um estudante morto pela repressão, no cemitério de Santa Cruz, em Díli, capital de Timor. Calcula-se que cerca de 200 pessoas tenham sido mortas naquele fatídico dia. Ainda hoje existem corpos que não foram reclamados, vítimas que não foram encontradas e identificadas. Nunca foi sequer efectuada uma lista das vítimas e dos sobreviventes do massacre.
Até ao 25 de Abril de 1974, Timor era uma província portuguesa. Em Agosto de 1975, Portugal deu a independência a Timor, abandonou a ilha e foi instituída uma Republica pelo líder Xanana Gusmão, líder da FRETILIN - Frente Revolucionária de Timor-Leste. Em Dezembro do mesmo ano, a Indonésia ocupou Timor, tornando a Ilha numa província Indonésia.
Nesta ocupação, o exército indonésio efectuou um verdadeiro genocídio sobre o povo timorense. Bombardeamentos destruíram aldeias inteiras e foram queimadas florestas para limitar o refúgio do exército timorense.
Em 1999, a Organização das Nações Unidas decidiu intervir na região. Soldados australianos, sob a bandeira da ONU, entraram em Timor e encontraram um país completamente incendiado e devastado. Xanana Gusmão, líder da resistência timorense, foi então libertado.
Em 2001, foi ano de eleições presidenciais em Timor e Xanana Gusmão foi consagrado como novo presidente. No ano seguinte, Timor-leste afirmou-se, finalmente, como um país independente. Nascia Timor Lorosae.
No entanto, ainda hoje Timor continua em clima de tensão. O cenário de guerra civil mantém-se, com atentados sistemáticos contra as forças de segurança no país e contra os líderes timorenses.
Dezoito anos depois, aqui fica a mais que sentida e justa homenagem ao povo que, contra tudo e contra todos, nunca deixou de lutar pelos seus direitos. É uma conquista quase diária, que é renovada, dia após dia, na esperança de um futuro melhor. Um direito que assiste a todos os Homens.
Dezoito anos depois, a história não pode nunca ser apagada. E com tanto ainda por fazer, continua a ser necessário acreditar.
Até para a semana. Directo à Questão.
Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Oitenta anos sobre o Crash de 1929: Uma reflexão entre o passado e o presente da economia mundial
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Passam oitenta anos sobre o Crash de 1929. Foi um dos crashes bolsistas mais devastadores da história Americana e mundial. A Quinta-feira negra, o crash inicial, deu-se a 24 de Outubro de 1929. Cinco dias mais tarde, ocorreu a famosa Terça-Feira negra. No dia 29 de Outubro de 1929 estava semeado o pânico geral.
A Quinta-feira negra, e depois a Terça-feira negra, deram origem a uma grave crise económica que se espalhou a todo o mundo industrializado e que se prolongou ao longo de vários anos da década de trinta do século passado. No dia 24 de Outubro, mais de 10 milhões de acções ficaram sem comprador e os preços caíram de minuto a minuto para valores muito abaixo dos que se verificavam na véspera, levando à ruína milhares de accionistas. O endividamento de muitos destes accionistas agora falidos acabou por propagar a crise para a banca, levando numerosas instituições financeiras à falência. Sem suporte financeiro e sem possibilidades de recorrer ao crédito bancário, muitas empresas acabaram também por falir, com a produção nos Estados Unidos a cair em mais de um quarto, atirando para o desemprego milhões de trabalhadores, dando uma dimensão dramática aos custos sociais da crise, só verdadeiramente ultrapassada com as despesas públicas que financiaram a Segunda Guerra Mundial.
Após o crash, o Dow Jones recuperou no início de 1930, mas acabou novamente por cair, chegando ao fundo do grande bear market em 1932. O mercado atingiu o seu ponto mais baixo em 8 de Julho de 1932 e não voltou aos seus níveis pré-1929 até ao final de 1954. Foi com a Quinta-feira negra que começou a chamada Grande Depressão dos anos trinta.
No entanto, apesar de conhecido como a Quinta-feira negra, o dia 24 de Outubro de 1929 nem foi dos dias em que a bolsa mais desceu, nem foi o primeiro dia em que tal aconteceu em 1929. De resto, nesse dia o índice bolsista Dow Jones acabou por cair uns simpáticos 2%, bastante menos do que tinha caído no dia anterior (6%). Por outro lado, a tendência de queda vinha já desde o início de Setembro, altura em que o Dow Jones atingiu o pico. Então aquela fatídica Quinta-feira fica famosa sobretudo pelos momentos de pânico vividos durante a manhã do dia 24, que resultaram numa oscilação de quase 13% do Dow Jones. O pânico foi contido pela notícia de que um grupo de banqueiros estaria disposto a comprar acções para evitar a descida das cotações.
Mas não foi suficiente. A instabilidade era demasiado alta. Era o início do mais famoso crash bolsista da história. Entre altos e baixos, por quase mais três anos, o Dow Jones perdeu cerca de 90% do seu valor.
Oitenta anos depois da época em que o pânico tomou conta de Wall Street, discute-se o fim da crise financeira internacional iniciada em 2007. Os paralelismos são inevitáveis. Segundo Fernando Alexandre, num artigo escrito com Pedro Bação, num artigo publicado no Semanário Económico, em 25 de Outubro de 2009, “embora a história não se repita, a incerteza relativamente à robustez dos sinais de recuperação alimenta o interesse por episódios semelhantes na esperança de neles se encontrarem as respostas que nos faltam”.
O paralelismo entre a actual crise global e a Grande Depressão dos anos trinta está no mecanismo essencial que lhe deu origem: um aumento do endividamento para comprar bens ou acções que se espera que se valorizem de modo a gerar o rendimento necessário para pagar a dívida contraída, mas que se torna incomportável quando o activo comprado deixa de se valorizar da forma esperada.
No entanto, no caso concreto da crise que vivemos actualmente, o aumento do endividamento foi mais complexo e em maior escala. O endividamento não só aumentou para financiar a aquisição de habitações por parte das famílias, mas também o aparecimento de inovações financeiras associado à afirmação de muitas das entidades de crédito que hoje tão bem conhecemos, permitiu aos bancos aumentar o seu volume de financiamento, mas também de endividamento dentro e fora de portas.
A grande diferença entre a crise actual e a despoletada em 1929 nos Estados Unidos é que desta vez as autoridades intervieram fortemente para evitar o colapso do sistema. Não deixaram, portanto, o mercado ditar as suas leis. O futuro dirá se foi a melhor decisão.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
O Desenvolvimento Económico-Social e a Evolução do Conceito de Qualidade de Vida (II)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na sequência da nossa última reflexão, discutimos hoje a noção de qualidade de vida, conceito que sofreu profundas alterações ao longo do processo de desenvolvimento económico-social da humanidade, sobretudo nos países ditos desenvolvidos.
A noção de qualidade de vida, como é definida actualmente pela Organização das Nações Unidas, procura, não só aferir os patamares atingidos de cidadania efectiva e de participação cívica, mas também as condições sociais existentes (designadamente condições de vida, oferta e acesso de bens e serviços) que permitem a sua manutenção ou florescimento, não esquecendo a actuação dos poderes públicos, da sociedade civil e da iniciativa privada, que, em conjunto, são co-responsáveis pelos desenvolvimentos sociais locais.
Esta noção de qualidade de vida alicerça-se nos conceitos de necessidade básica, oportunidades de ascensão social, auto-satisfação e auto-desenvolvimento. Nesta hierarquia de etapas, avança-se para a satisfação de uma necessidade determinada quando outras mais elementares já foram satisfeitas. Conforme o conceito de pirâmide das necessidades de Maslow, o nível das necessidades básicas (visto num âmbito alargado que, neste caso, inclui exigências próprias da modernidade) corresponde à base da pirâmide, terreno onde se garante a sobrevivência com dignidade e a criação de condições para passar à etapa seguinte.
Como sublinha Frances Stewart, bens e serviços como saúde, nutrição ou educação são características básicas das condições de vida que conseguirão muito provavelmente, enquanto necessidades humanas universais, um consenso alargado. Tais necessidades são geralmente consideradas prioritárias, porque da sua satisfação dependem as condições de desenvolvimento dos restantes aspectos da vida como, por exemplo, desfrutar da arte, da cultura ou do desporto.
Estamos, pois, perante um conceito intimamente relacionado com o processo de desenvolvimento económico-social. Ter qualidade de vida, definida como a satisfação de necessidades básicas, é cada vez mais ter acesso a condições de vida que contribuam para o desenvolvimento pessoal, social, económico e até mesmo cultural.
Até para a semana. Directo à Questão.
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
O Desenvolvimento Económico-Social e a Evolução do Conceito de Qualidade de Vida (I)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Registou-se nas últimas décadas uma transformação profunda na sociedade Portuguesa. É inegável.
O declínio acentuado na agricultura, outrora o mais importante sector de actividade económica, é particularmente visível nas regiões que dela dependiam de modo exclusivo ou quase, situadas predominantemente no interior do país. O seu tecido social transformou-se radicalmente. Estas regiões perderam população que emigrou para o exterior, com um destaque particular para os países mais importantes da União Europeia, ou para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e, em menor proporção, para outras regiões do litoral.
O envelhecimento da população que restou é outra realidade inquestionável.
Funções como a agricultura ou a indústria, o comércio ou os serviços encontram no tipo de aglomerado os argumentos para o seu estabelecimento, moldando e transformando a forma destes, estabelecendo relações de cooperação. São modos de ocupar o território, distintos nos seus conceitos e finalidades, que se complementam, sustentando a chamada “colonização” humana.
Contudo, como sabemos, o abandono dos campos, a deslocação dos mais novos para as cidades e até para o estrangeiro, deram origem a uma gradual desertificação das zonas rurais interiores, como atrás foi referido, e à inevitável degradação do parque habitacional, porque abandonado. Os “resistentes”, por força da idade, são idosos que, por circunstâncias várias, a que não será alheio o reduzido rendimento, são impotentes relativamente a esta questão.
É, por isso, também inegável, que mudaram as formas e contextos de vida. Mudaram as condições que estão na base da qualidade de vida das populações.
Na nossa próxima reflexão discutimos esta noção de qualidade de vida, conceito que sofreu profundas alterações ao longo do processo de desenvolvimento económico-social da humanidade, sobretudo nos países ditos desenvolvidos.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Paula Rego, seguramente uma das maiores pintoras vivas a nível mundial
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A Casa das Histórias - Museu Paula Rego foi recentemente inaugurada em Cascais. O sumptuoso edifício é da autoria do conceituado arquitecto Souto Moura e a direcção do Museu cabe a Dalila Rodrigues, reputado nome da cultura portuguesa, afastada em 2007 do Museu Nacional de Arte Antiga. Só quem não conhece o fantástico espólio do Museu Nacional de Arte Antiga e o excelente trabalho desenvolvido por Dalila Rodrigues na sua passagem por aquela instituição é que poderá ficar indiferente à qualidade da escolha para a direcção da Casa das Histórias.
Para aquele espaço, que promete afirmar-se como referência nacional e internacional na área artística, estão prometidas duas exposições anuais, isto para além da colecção permanente com mais de 100 obras da mais conceituada pintora portuguesa (e seguramente uma das maiores pintoras vivas a nível mundial). Como escrevia a revista "Pública", por ocasião da inauguração do Museu, trata-se de uma verdadeira "consagração em vida de uma artista imensa".
Não é fácil falar sobre Paula Rego. Nascida e criada numa família privilegiada, dividiu a sua vida e parece ainda hoje dividida entre Portugal e Inglaterra. Em Lisboa, onde nasceu, é onde se inspira habitualmente e são as vivências lusas que dão o mote para quase todas as suas obras. Os portugueses reconhecem a sua arte e parece inquestionável que se revêem na sua pintura, de tal forma que a sua exposição em Serralves, no Porto, no ano de 2007, teve mais de 150 mil visitantes, batendo todos os recordes do género em Portugal.
Contudo, foi em Londres que Paula Rego cresceu para a arte, onde fez toda a sua formação e é lá que continua a pintar. Foi a primeira artista associada da British Gallery e continua a ser convidada para as mais reputadas manifestações artísticas da capital inglesa. Não espanta, portanto, que continue a considerar-se “uma artista londrina”.
Os seus quadros de pastel seco trazem inquietação, perturbação, ansiedade e desespero, sempre com uma sexualidade latente e um evidente pendor político. Paula Rego diz-se uma fazedora de enredos, mas deixa o observador fazer a interpretação das histórias dos quadros à sua maneira, e até admite já ter sido forçada a mudar o desfecho das suas obras.
Temos, pois, um novo local de visita obrigatória. Para os amantes da arte. E não só. Esta Casa das Histórias, imponente novo espaço em Cascais, promete muitas surpresas. Como só Paula Rego saberá decerto proporcionar-nos. À sua maneira, claro…
Até para a semana. Directo à Questão.
Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
A Administração Local em Portugal: Entre a capacidade de inovação e a resistência à mudança (II)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Num período em que o país se prepara para eleger os seus representantes no poder local, em plena campanha eleitoral para as eleições autárquicas que se aproximam, debruçamos a nossa análise sobre a Administração Local em Portugal. Quais as forças e as fragilidades do poder autárquico? Que futuro para as autarquias no contexto da Administração Pública portuguesa?
Como vimos na passada semana, as autarquias, enquanto unidades político-administrativas relativamente autónomas das unidades públicas da Administração Central e de dimensão reduzida face a estas, constituem verdadeiras “rampas de lançamento” para a necessária inovação e mudança nas práticas públicas em Portugal. Contudo, existe todo um conjunto de fenómenos que toldam a Administração Local, impedindo esse processo de ruptura.
Antes de mais, importa assinalar a enorme percentagem de gastos com o pessoal na estrutura de custos das autarquias. Tendo em conta que as despesas de investimento se revestem de uma importância fulcral no desempenho das autarquias (afinal é, sobretudo, em função delas que a gestão municipal é avaliada no final de cada mandato eleitoral), um dos poucos elementos que possui margem de manobra na gestão de uma autarquia são precisamente os custos com pessoal. Perante o aumento das áreas de actuação dos municípios e a natural tendência de terceirização dos serviços por eles prestados, a redução das despesas correntes da autarquia passa pela natural flexibilização dos quadros de pessoal. Não esqueçamos, no entanto, que a maioria dos trabalhadores são também eleitores, pelo que existe, naturalmente, um conflito de interesses na gestão das despesas municipais ao nível dos custos com pessoal.
Contudo, um dos grandes problemas da administração autárquica, que entronca nos restantes, é a ausência de um trabalho de parceria efectivo com municípios vizinhos. De facto, parece-nos evidente que, em alternativa ao trabalho isolado (na lógica de “cada um no seu quintal”) característico da gestão municipal, a administração local só teria a ganhar com a existência de um maior e mais dinâmico intercâmbio entre entidades de referencial geo-estratégico comum.
De resto, parece-nos evidente que a grande lacuna deste tipo de organizações se encontra precisamente ao nível do planeamento estratégico. Não existem políticas integradas de gestão municipal, a estratégia encontra-se mal delineada em termos de objectivos gerais e específicos, as estruturas são propensas ao desenvolvimento de comportamentos de resistência à mudança e, inversamente, não existem estímulos à inovação e ao empreendedorismo. De resto, a inovação ou a assumpção do risco, quando existem, são sobretudo individuais, ou seja, partem de baixo para cima na estrutura hierárquica, que, pelas suas características de rigidez e divisionalismo, não propicia a existência de um impacto directo nos processos de gestão.
Finalmente, concordamos com Mintzberg quando afirma que as sociedades têm o serviço público correspondente às suas expectativas. Se as pessoas alimentam crenças de que o Estado é “pesado” e burocrático, então é assim que ele será. Pelo contrário, se reconhecerem o serviço público enquanto a causa nobre que efectivamente representa, então encontrarão um Estado forte e justo. E uma nação necessita sobretudo de que ambos os sectores, público e privado, sejam fortes, interagindo num saudável equilíbrio.
Até para a semana. Directo à Questão.
A Administração Local em Portugal: Entre a capacidade de inovação e a resistência à mudança (I)
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Num período em que o país se prepara para eleger os seus representantes no poder local, em plena campanha eleitoral para as eleições autárquicas que se aproximam, debruçamos a nossa análise sobre a Administração Local em Portugal. Quais as forças e as fragilidades do poder autárquico? Que futuro para as autarquias no contexto da Administração Pública portuguesa?
Como é defendido por Paulo Magro da Luz, da Partner Government & Health Care, Novabase Consulting, num artigo de opinião publicado em Suplemento do Diário Económico Digital de Setembro de 2005 subordinado ao tema Modernização da Administração Pública Portuguesa, “a necessidade de uma intervenção profunda na Administração do Estado que suporte transformações de Organização, Processos e Recursos Humanos para a tornar mais ágil, eficiente e compatível com os actuais níveis de exigência da sociedade e com as capacidades do País é hoje consensual”.
Reconhecido o importantíssimo poder do Estado, enquanto elemento regulador e decisório, a problemática da Administração Pública portuguesa reside essencialmente, nos desequilíbrios existentes, na ineficiência no cumprimento da “missão” pública, no latente défice de produtividade existente e na rigidez aos mais diversos níveis, sobretudo em termos de procedimentos e de afectação de recursos (humanos e financeiros). Temos um Estado que, basicamente, não cumpre eficazmente com a sua função reguladora e fiscalizadora e que presta um serviço público em que os custos envolvidos não encontram revérbero na qualidade oferecida ao cliente.
Contudo, enquanto máquina “pesada” que é, torna-se difícil encetar um mais do que urgente processo de mudança. Tal é, de resto, impossível enquanto for o próprio Estado a dar os maus exemplos, com serviços burocratizados e pouco produtivos. O aparelho administrativo do Estado, apesar da ocorrência de algumas rupturas no sistema político e social português, não tem sido objecto de alterações dramáticas equivalentes, nomeadamente ao nível da cultura administrativa e da burocracia pública. Neste sentido, tem-se, de alguma forma, mantido o pendor centralista, legalista, “administrativista” e conservador da Administração Pública portuguesa.
Se nos centrarmos nas especificidades da Administração Autárquica, ou seja, na gestão dos Municípios, enquanto unidades político-administrativas relativamente autónomas das unidades públicas da Administração Central, verificamos que, sem embargo da evidente uniformidade de regras existentes para a generalidade das instituições públicas, as suas particularidades poderão ditar uma maior ou menor abertura daquelas entidades à modernidade e, naturalmente, marcar diferenças na sua capacidade de absorção de formas mais flexíveis de gestão.
Os Municípios não são apenas entidades públicas de administração, mas igualmenteunidades de governo próprio, possuindo, como tal, a mesma legitimidade política, financeira e democrática que é reconhecida ao governo central. Significa isto que os Municípios possuem autonomia política e capacidade de decisão autónoma. Os Municípios, além de unidades de governo, ou entidades políticas de governação local, constituem ainda verdadeiras unidades produtivas, ao produzirem e distribuírem pela comunidade um apreciável volume de serviços. Nalgumas localidades, são mesmo as principais entidades empregadoras concelhias. Assim, constituem efectivas unidades de gestão, sendo obrigadas a planear e utilizar os meios, as técnicas e os métodos mais adequados para melhor rentabilizar a sua acção e de forma mais eficiente servir as populações.
A ambiência positiva na Administração Local para a absorção da modernidade e para melhor utilização dos meios e métodos avançados de gestão pública torna, portanto, o governo local no mais capaz de inovação. Mais do que no sector privado, esta inovação depende dos indivíduos, isto é, dos funcionários, já que estes se comportam predominantemente com base em padrões e normas de conduta.
Existe, contudo, um conjunto de debilidades que impedem a concretização de melhores níveis de absorção das práticas modernas de gestão nos municípios e, portanto, de maiores índices de eficiência locais. É sobre os entraves à inovação nas autarquias locais que nos debruçaremos na nossa próxima reflexão.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Madrid e Barcelona: Verdadeiros banquetes para os sentidos
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Chamam-lhe a Nova Iorque europeia. Eu chamar-lhe-ia a capital de todas as emoções. Arte e prazer combinam-se excepcionalmente numa cidade repleta de luz e de sentimento. Cosmopolita mas familiar. Uma tentação em cada esquina. Assim é Madrid.
A oferta dos museus é irrecusável: Guernica, a obra-prima de Picasso, merece cada segundo de contemplação, no Rainha Sofia. A Porta do Sol irradia claridade: a Plaza Mayor e os Jardins do Palácio Real completam a magia, iluminado sobre o visitante. Os bares de tapas, cafés e irresistíveis restaurantes são um deleite para os sentidos: só o Passeio do Prado conseguiria deleitar-me deliciosamente. As rotas de El Greco e de Velásquez convivem maravilhosamente com a modernidade dos arranha-céus nas “Portas da Europa”: no contexto de uma peculiar arquitectura dos anos 20 particularmente cuidada, Madrid parece ter sido tirada directamente de um conto de fadas.
Poucas cidades acolhem assim. Madrid é uma pérola no meio da Ibéria.
Mas Barcelona é tudo isso e muito mais. Barcelona é, pura e simplesmente, uma das mais vibrantes e emocionantes cidades europeias. É impossível ficar indiferente ao seu cosmopolitismo (que encontra o seu expoente máximo nas deliciosamente intermináveis Las Ramblas), à sua gastronomia (com as inevitáveis tapas e a improvável surpresa que é o fabuloso Restaurante Market - absolutamente obrigatório!!), à cor e à luz que dela irradiam (em locais como a Fonte Mágica ou a Torre Agbar) ou ao verde mágico de Montjuic e Tibidabó (e, claro, do imponente Parque Güell).
Mas o que realmente surpreende em Barcelona é a arte. Não bastava conjugar majestosamente os elementos urbano (com toda a monumentalidade da zona histórica, do Bairro Gótico ao Poble Espanhol) e natural (com as inebriantes paisagens em harmonia citadina, tendo o azul do Mediterrâneo como fundo). Não bastava tudo isso e tudo o que de mais foi dito. Barcelona consegue ainda transpirar arte em cada um dos seus mais recondidos recantos. Por tudo isso e tudo o que de mais será dito, esta Barcelona de Dali, de Picasso, de Miró, mas sobretudo de Gaudí, é uma cidade quase perfeita.
A Sagrada Família é o expoente máximo da grandiosidade da cidade e do próprio Antoni Gaudí. Nela, o autor trabalhou quarenta anos, até morrer. A sua construção iniciou-se sob o conceito de templo expiatório, pelo que foi financiada desde o início exclusivamente a partir de esmolas de particulares. Ainda hoje continua a ser construída a partir de donativos e receitas provenientes das entradas dos visitantes. A sua conclusão está prevista para 2030. Conjuntamente com obras como a Casa Milá (La Pedrera), a Casa Batló (A Casa dos Ossos) ou a Casa Vicens, Barcelona revela em cada esquina toda a singularidade do mestre Gaudí. Poucos artistas terão esse mérito de poder dizer - e fazer - sua uma cidade.
Nestas terras de magia, falta sempre visitar qualquer coisa. Falta sempre (re)descobrir um lugar, um espaço, um som que ficou para trás.
Até para a semana. Directo à Questão.
Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
A Hiperactividade em Contexto Escolar: Contributos para a Compreensão do Problema
Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
A Hiperactividade é um dos mais mediáticos distúrbios do foro psicológico em contexto escolar. É, contudo, um dos menos compreendidos por pais, professores e demais agentes educativos que diariamente são obrigados a lidar com alunos com este tipo de problemas.
De acordo com a DSM-IV, o Manual de Diagnóstico das Doenças Mentais, comummente aceite a nível internacional pelos profissionais ligados à saúde mental, e que uniformiza os critérios de diagnóstico dos distúrbios psicológicos, a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção é definida como um “padrão persistente de falta de atenção e impulsividade, com uma intensidade mais frequente e grave que o observado habitualmente nos sujeitos com um nível semelhante de desenvolvimento”.
Para uma melhor compreensão do problema em contexto escolar, importa salientar todo um conjunto de questões que me parece que podem ajudar a clarificar aquilo que está na base do distúrbio de Hiperactividade. Antes de mais, importa lembrar que a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção não tem sinais físicos claros – é identificada por um conjunto de comportamentos específicos. Depois, importa ainda salientar que não foi identificada uma causa única por detrás dos diferentes padrões de comportamento hiperactivo. Finalmente, importa afirmar que a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção funciona frequentemente como uma espécie de “guarda-chuva” sob o qual se abrigam perturbações com as mais diversas origens. De facto, os sintomas de Hiperactividade com Défice de Atenção tendem a corresponder, na sua essência, a uma manifestação comportamental de défices emocionais, cognitivos ou dificuldades de aprendizagem específicas, os quais não podem ser descurados, muito pelo contrário, na percepção dos problemas do aluno hiperactivo.
Sem colocar em causa o profissionalismo dos técnicos que trabalham diariamente com este tipo de alunos, chego mesmo a duvidar de muitos dos diagnósticos de Hiperactividade que, comummente, continuam a ser efectuados. Qualquer diagnóstico de Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção exige a realização apurada de vários exames clínicos de despistagem, nomeadamente do foro neurológico, para que seja possível fazer um efectivo diagnóstico diferencial do problema.
Para lidar com estes alunos, não existem procedimentos infalíveis, pelo que as medidas a adoptar por parte dos agentes educativos no tratamento de alunos com Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção devem ser consistentes com as necessidades da criança e adaptáveis à situação de ensino. Contudo, existem alguns conselhos que podem e devem ser tidos em conta. Antes de mais, deverá existir um esforço de todos para que as dificuldades sejam integradas e compreendidas por pais, professores e próprio aluno e os seus efeitos minimizados.
Outras sugestões de âmbito mais prático podem ser seguidas, nomeadamente a localização da criança da sala distante de estímulos distractores; a definição de um sistema muito claro de regras, com recompensa imediata de comportamentos adequados; o desenvolvimento na criança da percepção de que um comportamento é influenciado pelos antecedentes e que a sua repetição está dependente dos consequentes; a introdução de estímulos concretos que ajudem o aluno hiperactivo a autocontrolar-se; ou o recurso a formas particulares de tolerância (por exemplo, dar mais tempo para a realização de uma tarefa).
Até para a semana. Directo à Questão.