Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

Mudança Cultural nas Organizações (II): A Cultura de uma Empresa é Gerível?

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Continuamos hoje a discutir a mudança nas empresas enquanto fenómeno global e necessário para o desenvolvimento da economia. Como vimos na última reflexão, a mudança organizacional só é possível se for acompanhada de uma verdadeira mudança cultural.
Quando a actuação de uma organização deixa de corresponder ao esperado, ou quando os resultados obtidos põem em causa a sua viabilidade, esta – na figura dos orgãos e instâncias de gestão – é confrontada com a tarefa de criar uma nova “visão” ou um novo “projecto”, que poderá significar o edificar de uma nova cultura organizacional, de um novo padrão organizacional, traduzível num trabalho de clarificação e explicitação da cultura operante na organização e na elaboração de uma outra considerada preferível ou desejável.
Verifica-se, no entanto e em boa verdade, que os padrões de comportamento nas e das empresas são reconhecidamente difíceis de mudar, ainda que a necessidade de os mudar seja manifesta e insistentemente reclamada. Intervir numa organização é intervir num sistema e confrontar-se com hábitos e costumes, formas de agir e de pensar, valores em pressupostos, em suma, com uma cultura. A questão é, portanto: Será que a cultura de uma empresa é gerível?
A orientação em que predominam as preocupações de ordem económica concebe a cultura organizacional como uma variável susceptível de ser manipulada e, centrando-se sobre as práticas de gestão, salienta a importância da gestão da mesma, tendo em vista o controlo e eficácia organizacionais. Trata-se de uma posição maioritariamente partilhada por consultores e gestores, os quais tendem a intervir no pressuposto de que a cultura organizacional pode ser mudada e gerida, sendo possível alterá-la de forma planeada.
Se esta orientação coloca a ênfase no controlo e na previsão, outros advogam que não faz sentido falar de gestão da cultura, na medida em que esta é, fundamentalmente, a tradução e expressão profunda de necessidades e um meio de dar sentido à experiência. Esta posição, alheia a preocupações produtivistas, não só chama a atenção para as questões éticas que a intervenção na cultura pode implicar, como denuncia a gestão da cultura como um poderoso meio de controlo implícito.
De acordo com Duarte Gomes, professor da Universidade de Coimbra, um outro modo – quiçá mais proveitoso do que o procurar dar uma resposta à pergunta “a cultura é gerível?” - consiste em perguntar: “quais os aspectos ou dimensões da cultura que podem ser objecto de gestão?”. O que é que podemos mudar numa empresa? Apenas o comportamento individual dos trabalhadores (a sua motivação, o seu empenho, o seu comprometimento)? Ou será possível mudar valores e crenças globais? A própria orientação estratégica da empresa?
Ter uma “visão” ou um “projecto” para a organização poderá, pois, significar a construção de um novo sistema que dê sentido e torne significativa a vida organizacional, ou seja, o enformar e constituir de uma nova cultura organizacional. No entanto, em relação a uma mudança de ordem e natureza cultural, ter uma “visão” ou conceber um “projecto” que dê vida a uma nova cultura, sendo uma condição necessária, não é suficiente. A partir do momento em que esta nova “visão” existe, resta delinear uma estratégia de gestão que permita e facilite a transição da cultura vigente para a cultura considerada desejável e que conduz à posterior estabilização da nova cultura. É neste momento que a necessidade de intervenção na cultura organizacional se faz sentir.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 17:18
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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Mudança Cultural nas Organizações (I): As Empresas e a Necessidade de Sobrevivência

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Como temos vindo a discutir, uma organização ou empresa, enquanto sistema aberto, não é imune às mudanças ocorridas no meio em que está inserida. Para fazer face ao contexto em que opera, a empresa (re)age inovando, na medida em que da sua adaptação à “turbulência” do ambiente externo e interno está dependente a sua viabilidade, eficácia e processo de desenvolvimento, processo esse que é, por natureza, dinâmico e não linear. Como já aludimos, as mudanças significativas, entretanto verificadas nos quadrantes económico, tecnológico e psicossocial da sociedade contemporânea, acentuam esta impositiva dependência, deslocando esforços e recursos no sentido da implementação de câmbios e reorientações, ao nível da organização do trabalho e da sua gestão.
Com efeito, as condições em que as organizações operam, exigem uma resposta sem a qual o fracasso organizacional é um resultado frequente. Na década de noventa, por exemplo, 46% das 500 maiores empresas mundiais, definidas pela revista Fortune, pura e simplesmente desapareceram da lista.
Esta dramática e intempestiva mudança ao nível da eficácia e sobrevivência organizacionais, é (mais) compreensível se atendermos à mudança entretanto ocorrida nos, assim denominados, países do Ocidente desenvolvido: a transição de um modelo de organização económica baseada numa produção do tipo industrial – ajustada à produção de bens para satisfazer necessidades já conhecidas e existentes –, para um modelo de economia baseada no consumo – de produtos que vão ao encontro de necessidades ainda inexistentes e, por tal, pouco previsíveis –, e, em particular, no sector dos serviços e na informação. Na realidade emergente – qualificável como “terceira vaga” ou vista como um prenúncio de “desindustrialização” ou de “pós-industrialização” –, o “maquinismo pós-industrial” da “sociedade de informação” obriga, deste modo, a repensar e reequacionar práticas e teorias organizacionais.
Parte significativa da mudança e inovação organizacional das duas últimas décadas visou, portanto, o enriquecimento do conteúdo do trabalho, a libertação da autonomia, iniciativa e responsabilidade funcionais, a complexificação e enriquecimento das organizações e dos seus modelos de gestão. Os esforços actuais para mudar as empresas, o seu funcionamento, a sua cultura, o seu modo de estar no mercado, têm em vista dotá-las da polivalência funcional e da adaptabilidade indispensáveis, que lhes permitam fazer face aos desafios colocados pela evolução do meio em que operam. Subjacente às diferentes abordagens e perspectivas emergentes, encontramos a interrogação sobre o modo tradicional de organizar e gerir.
A tradicional organização tipo máquina é, assim, objecto de múltiplas críticas, quer pelos problemas que coloca ao nível da organização humana das empresas, quer pela rigidez que induz e que acaba por reduzir a sua flexibilidade e competitividade. Assistiu-se, na década de 70 do século que hoje vislumbramos como “passado”, à emergência de uma tendência contraposta à divisão, estandardização e burocratização do trabalho, tendo por objectivo promover a libertação da organização, relativamente aos múltiplos circuitos e controlos rigidificantes que a haviam tornado muito difícil de gerir. È neste âmbito que surgem os programas de “humanização do trabalho”, de “qualidade de vida no trabalho” e de “democracia organizacional”.
As estratégias inovadoras de que as organizações se dotam dizem respeito, a maior parte das vezes, à mudança e inovação estrutural e processual e, mais raramente, à mudança e inovação organizacional, isto é, àquela que reporta à globalidade da empresa. De facto, é frequente as empresas atribuírem uma elevada prioridade a uma inovação do tipo tecnológico – que é equiparada e assimilada a um garante de modernização e de competitividade empresarial –, e relegarem para um plano secundário a inovação organizacional.
A debilidade das iniciativas de mudança organizacional reside, precisamente, no facto de, na maioria dos casos, negligenciar a vertente cultural da empresa, ou seja, na prática, a cultura da empresa acabar por permanecer na mesma. Esta dependência que associa uma melhoria organizacional a uma mudança cultural, reside e fundamenta-se no facto de que, aquando da implementação de uma estratégia inovadora, os valores, as orientações, as definições e os objectivos permanecem idênticos. Noutros termos, sem a modificação dos objectivos, valores e expectativas basilares (de nível individual e organizacional), a dita mudança ou inovação manifesta-se “curta”, superficial ou tangencial, gerando perniciosos efeitos que definham a curto prazo.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 12:25
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Globalização e Conhecimento (II): O Caso Português

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
O Conhecimento, enquanto a base de grande parte do comportamento implica, como vimos na última semana, capacidade de organização da informação existente tendo em vista a resposta a problemas específicos. O trabalhador do conhecimento imerge na sociedade actual como grupo profissional dominante, com níveis elevados de habilitações académicas, autonomia e desenvolvimento profissional contínuo. Este novo operário surge no culminar de um processo de desenvolvimento do capitalismo que corresponde à transição para uma fase porventura terminal, o capitalismo do mercado global.
A Globalização, termo diverso e complexo, falsa ideia clara ou verdadeira ideia confusa, o certo é que constitui um dado adquirido e incontornável. Por isso, a questão que a sociedade actual deve colocar não é se deve ou não existir uma economia global, antes como potenciar essa economia. Como analisámos na nossa anterior reflexão, a economia de mercado global e a transição para a Economia Baseada no Conhecimento constituem dois verdadeiros megaprocessos em curso no contexto macroeconómico que se condicionam reciprocamente. Nesse sentido, podemos afirmar que existe um nível englobante das economias nacionais, em que se situam as grandes empresas transnacionais ou, nas palavras de José Pinto dos Santos, professor português do INSEAD, um novo tipo de multinacionais, as metanacionais.
Tomando como prisma de análise a globalização enquanto processo de integração económica mundial, podemos considerar a integração de Portugal na União Europeia um processo de inserção da economia portuguesa num processo mundial de globalização. A integração europeia assume-se, assim, enquanto uma resposta macro-regional à Globalização, sem criar uma fortaleza europeia, salvaguardando identidades culturais e não deixando de defender interesses nacionais.
Este processo de transnacionalização crescente da economia torna particularmente relevante a competitividade estrutural da economia no mercado global. Um país torna-se mais ou menos atractivo ao Investimento Directo Estrangeiro em função do desempenho das suas estruturas económicas. Esse desempenho é medido tendo por base um conjunto de indicadores estruturais que, no caso português, se traduzem em evidentes problemas de competitividade. Senão vejamos. Sem necessidade de recorrer a uma análise exaustiva, facilmente verificamos que: a) existem problemas de fundo no sistema fiscal; b) o Estado é “gordo” e ineficiente; c) o ensino e formação profissional são ministrados mais em quantidade do que em qualidade; d) existe uma baixa produtividade empresarial; e) os índices de corrupção são elevados; f) existe escassez de mão-de-obra qualificada; g) a intensidade de concorrência no mercado interno é baixa... Enfim, todo um conjunto de entraves à competitividade da economia portuguesa no mercado global.
Para garantir a existência de uma convergência real entre os Estados-membros, a União Europeia implicou uma substancial transferência de recursos financeiros para os países com dificuldades de índole estrutural, daí a denominação de fundos estruturais. No entanto, apesar de Portugal ter sido amplamente beneficiado por este tipo de ajudas, a economia nacional continua actualmente no extremo inferior da classificação no Índice de Desenvolvimento Humano, calculado anualmente pelas Nações Unidas.
Não esqueçamos, contudo, que os níveis de partida foram muito baixos à escala da Europa Ocidental, sobretudo em termos de desenvolvimento de recursos humanos. Os números são inequívocos e revelam que a economia portuguesa registou um crescimento profundo na última metade do século XX, em grande parte alavancado por indução externa, enquanto resultado directo do fim do “autocentramento imperial” e de uma crescente abertura externa (europeia e ibérica).
Acrescente-se ainda que o princípio da solidariedade europeia parece não ser conciliável com a lógica de mercado global. De facto, as transferências de fundos comunitários são necessárias, mas não suficientes, uma vez que não atenuam variáveis como a posição periférica do país e as suas matrizes culturais idiossincráticas. Por exemplo, a emergência à escala global de países como a China acentua as dificuldades de uma economia como a portuguesa, largamente em mão-de-obra barata e produtos de baixo valor acrescentado. Também os “recém-integrados” países da Europa Central e de Leste constituem ameaça directa à economia nacional, ao aliarem aos menores custos directos e indirectos de trabalho um sólido e inestimável capital do conhecimento.
Portanto, o problema centra-se no evidente e amplamente discutido atraso em termos de capital humano e no estatuto periférico no seio da União, reforçado por força do alargamento a uma Europa a vinte e sete. Neste cenário, parece-nos que o único rumo possível para o futuro de Portugal é a valorização da diferença, o que implica uma mudança necessariamente gradual no sentido do aumento da capacidade endógena de inovação e empreendedorismo.
Consideramos, portanto, que não podemos considerar a integração na União Europeia uma oportunidade desperdiçada. No contexto global actual, seria impossível abdicar da pertença europeia e, se é verdade que, qual sina lusa, voltamos a partir atrasados para um novo desafio, importa, sobretudo, não perder o comboio do conhecimento. Nesta “nova epopeia”, o Estado e os empresários portugueses têm um papel decisivo na definição de estratégias em prol de uma sociedade do conhecimento. Mas, porque a etiologia do problema de competitividade estrutural português tem uma enorme fatia cultural, a premência de mudança impende sobre cada um de nós. E deve, por isso, partir, antes de mais, de cada um de nós. De todos nós.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 11:45
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Globalização e Conhecimento (I): Sobre a inovação e o empreendedorismo

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Vivemos num tempo de transições. A expressão não é nova e identifica grande parte das macro-mudanças que vive actualmente o mundo económico. Neste tempo de transições, assiste-se à emergência de uma verdadeira Economia Baseada no Conhecimento, caracterizada por elevados níveis de instrução da mão-de-obra, alta qualidade dos sistemas de ensino e prolongada esperança média de vida da população, ou seja, pela valorização do capital humano das organizações.
Face a este contexto, a inovação surge enquanto elemento central da Economia Baseada no Conhecimento. Trata-se de um conceito abrangente e que pode assumir várias modalidades de acção, caracterizado essencialmente pela introdução de alterações estratégicas em produtos ou processos. Joseph Schumpeter, ele próprio um verdadeiro inovador, já no início do século XX, defendia que a característica básica do Capitalismo é a ruptura do estado rotineiro e estacionário de equilíbrio, num processo de desenvolvimento endógeno e auto-adaptativo, que denominou dedestruição criadora. Assim, o equilíbrio surge não como um objectivo em si, antes como um meio, um instrumento tendo em vista a optimização de recursos. E, nesse processo dinâmico, surge a figura do empresário empreendedor enquanto agente anti-rotineiro capaz da inovação. Para tal, ele necessita de conhecimento, isto é, da recolha, organização e sistematização da informação relevante que lhe permita a adaptação bem sucedida da empresa às modificações ocorridas na sua envolvente.
A inovação é, assim, mais do que um conjunto de pequenas mudanças. Ela não será necessariamente criativa; poderá mais não ser do que uma inovação imitativa, adaptativa, incremental, ou seja, uma adaptação com êxito de algo já existente a um novo contexto. Inovar é, antes de mais, aproveitar uma oportunidade de mercado, antecipando a concorrência. Evidenciamos, assim, a necessidade que impende à organização de gerar vantagem competitiva de forma a aproveitar as oportunidades e ter capacidade de resposta atempada e eficaz a movimentos competitivos da concorrência. Portanto, embora a inovação possa simplesmente acontecer, de uma forma mais ou menos frequente, surge cada vez mais a necessidade de a posicionar no centro da estratégia empresarial.
É aqui que importa introduzir o conceito de valor acrescentado, enquanto dimensão intimamente associada à noção de inovação. De facto, uma inovação bem sucedida no mercado é origem da criação de valor, o que implica a capacidade de tirar proveito de cadeias produtivas flexíveis e cada vez mais organizadas a nível transnacional. Para que seja possível uma eficiente gestão da cadeia de valor, é necessário que o empreendedor possua a capacidade de maximizar e reter o valor acrescentado produzido. Fala-se, assim, em gestão do conhecimento porquanto nos referimos à actividade orientada para a estimulação e criação de condições de sucesso favoráveis à emergência de inovações bem sucedidas no mercado.
Contudo, o garante de inovação e progresso técnico depende ainda de um conjunto de factores de competitividade estrutural, que tornam o empresário e o mercado mais ou menos capazes de modernização e eficiência. Estamos, portanto, perante um leque alargado de condicionantes estruturais, de ordem social, institucional, científica e tecnológica, como são o sistema de ensino e formação, os níveis de Investigação & Desenvolvimento e o próprio Estado. Refira-se, inevitavelmente, o caso concreto da economia portuguesa, em que, para além da ausência de valor acrescentado dos produtos, existe todo um conjunto de problemas de índole estrutural que interferem directamente na competitividade, sobre os quais nos debruçaremos em particular no momento seguinte desta reflexão.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 15:44
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

A Qualidade dos Exames no Contexto da Qualidade do Ensino

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
            Muito se tem discutido sobre a facilidade dos Exames Nacionais deste ano. Apetece-me começar por afirmar que, uma vez mais, os portugueses revelam a sua crónica insatisfação e inconformismo. Se os exames são difíceis é porque são difíceis e exigem demasiado dos alunos, as questões não são claras ou avaliam temas laterais. Se os exames são fáceis é porque são fáceis e não exigem qualquer esforço, as questões são demasiado básicas ou não reflectem o nível de exigência esperado. É verdade que o português tem opinião sobre tudo e está sempre pronto a criticar o que quer que seja. Mas será que desta vez tem mesmo razão? Os Exames deste ano foram mesmo mais fáceis que o habitual? E será que isso é positivo ou negativo?
Qualquer inquérito informal efectuado “junto de um professor perto de si” será suficiente para perceber que a opinião generalizada é a de que, de facto, as Provas e Exames produzidos este ano pelo Ministério da Educação foram efectivamente mais fáceis, quando comparados com os dos anos anteriores.
            A importância deste tipo de Provas, realizadas a nível nacional, é inequívoca. Permite, antes de mais, um estabelecimento de competências mínimas para um determinado nível de ensino. Para além disso, facilita todo um tipo de comparações de enorme utilidade para a avaliação do Sistema de Ensino. Comparação entre escolas, comparação entre alunos, comparação entre professores.
            É aqui que reside todo um grande conjunto de questões.
Será justo avaliar a qualidade de uma escola pela nota dos Exames Nacionais dos seus alunos? Existem demasiadas variáveis que interferem na qualidade do ensino produzido numa determinada escola para que possamos reduzi-la às classificações dos Exames e depois produzir rankings a partir desses dados, anualmente divulgados e amplamente difundidos pela comunicação social. Esta classificação dos estabelecimentos de ensino mostra-se puramente artificial, ignorando as diferenças socais existentes entre as populações de cada escola e contribuindo para o agudizar da questão relacionada com a diferenciação entre ensino público e privado. Procura-se, com base em critérios de classificação discutíveis, criar uma elite que diferencie das restantes as melhores instituições de ensino, aquelas que melhor preparam os alunos. As escolas, para não se verem sem a sua matéria-prima, os alunos, que “fogem” para as melhores instituições, vêem-se obrigadas a utilizar várias estratégias para conseguirem cativar jovens, cada vez em menor número numa sociedade envelhecida. Os alunos, esses procuram o melhor para a sua formação, tomando como critério de tomada de decisão a exigência e a qualidade do estabelecimento de ensino. Será esta a resposta da escola a uma sociedade competitiva e exigente? Estaremos nós a regressar ao modelo da “escola-fábrica” que vigorou num passado não muito longínquo? Deverá a educação constituir uma mercadoria, como qualquer produto de consumo imediato? Serão os alunos meros produtos de um processo cuja qualidade varia de escola para escola? E mais, será justo avaliar a qualidade dos professores pelas classificações dos seus alunos nos Exames?
Temos pois que é nossa opinião que a qualidade de um estabelecimento de ensino ou de um professor de uma determinada disciplina não pode ser avaliada exclusivamente (ou maioritariamente) pelas classificações dos Exames. Mas se isso é verdade, também o é que os exames constituem uma das melhores formas – se não a melhor! – de comparar alunos. Sim, de facto a nota de um aluno não pode ser reduzida ao resultado de um Exame (que pode naquele dia ter corrido pior devido ao nervosismo, ou por ter incidido mais sobre aquela matéria que dominava pior). Contudo, o Exame tem, e é justo que continue a ter, um peso significativo na selecção dos alunos. E é aqui que reside o busílis da questão.
Se no 4.º, 6.º ou 9.º ano de escolaridade, ou seja, no terminus de cada ciclo de ensino da escolaridade obrigatória, os exames servem sobretudo para nivelar competências e aferir conhecimentos (daí serem – e muito bem – designados como “Provas de Aferição”), no 12.º ano eles têm um peso absolutamente significativo no acesso ao Ensino Superior. Nesta fase, os Exames adquirem uma outra função – a função discriminatória. Ou seja, contribuem decisivamente para a selecção dos candidatos que acedem ao Superior e dos Cursos e Instituições que representam.
É extraordinariamente gratificante encontrar um professor a festejar a alegria de um aluno seu que sai da prova eufórico porque achou fácil ou porque correu bem. Ou daquele que conseguiu entrar no curso superior da sua preferência. Muitos professores vivem e sobrevivem diariamente na sua profissão para este tipo de pequenas alegrias. Mas os alunos não podem, pura e simplesmente, entrar todos no Ensino Superior.
É por isso que consideramos que os Exames não podem ser difíceis, no sentido em que devem ser claros e não conduzir a dúvidas de interpretação ou correcção e devem avaliar temas centrais e competências chave. Mas também não podem ser fáceis, no sentido em que devem ter um nível de exigência mínimo que possibilite a distinção entre quem estudou e quem não estudou, e entre quem atingiu as competências e quem superou essas competências. E nós sabemos que atingir este equilíbrio é um desafio para quem elabora uma prova com a exigência de um Exame Nacional.
Falamos de qualidade das escolas, de qualidade dos professores, de qualidade do ensino. Agora falamos da qualidade dos Exames. E, em meu entender, a qualidade dos Exames deste ano será medida não pelo número de positivas ou pelo número de alunos que concluíram o Ensino Secundário, ou ainda pelas classificações mínimas de acesso ao Superior. Estes valores até podem subir todos em relação ao ano anterior e isso não significa que os exames tenham tido melhor qualidade. Essa qualidade dos Exames tem que ser avaliada pelo diferencial entre a nota da disciplina (resultado de um processo de aprendizagem contínuo) e a classificação do Exame. Se um aluno tiver nota 10 no final do ano e tiver 18 no Exame algo estará mal. E lá chegamos novamente aos professores. A culpa terá que ser sempre deles? Aguardemos pois os resultados oficiais.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 09:33
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