Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Batalha de São Mamede: O início de Portugal

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
 
Hoje é dia de São João Baptista. Comemora-se ainda o aniversário do nascimento de Nuno Álvares Pereira, agora São Nuno de Santa Maria. Mas há uma outra efeméride deste dia, até mais esquecida que as anteriormente referidas, contudo absolutamente decisiva para toda a História de Portugal.
Corria o ano de 1128. A 24 de Junho daquele ano, faz hoje justamente 881 anos, travava-se a Batalha de São Mamede, entre D. Afonso Henriques e a sua mãe D. Teresa. Tendo o primeiro rei de Portugal vencido esta contenda, era dado início ao processo que viria a garantir a independência do Condado Portucalense face ao Reino de Leão. Era – tão-somente – o início de Portugal.
Foi, portanto, em Junho, precisamente no dia 24 de Junho, que, perto do castelo de Guimarães, ocorreu a primeira grande peleja liderada por Afonso Henriques, a batalha de S. Mamede. Porque foi travada contra a sua mãe e seus aliados e porque, como acabámos de referir, alicerçou todo o processo de independência do Condado Portucalense relativamente ao Reino de Leão, acabou por se tornar num dos mais conhecidos e comentados confrontos da nossa história.
Desde 1112, ano da morte do seu esposo, D. Teresa detinha o governo do condado Portucalense tendo a seu lado fidalgos castelhanos, nomeadamente Fernão Peres de Trava, com quem, pensa-se, terá mantido, inclusive, uma relação marital.
Já desde 1127, o infante Afonso Henriques mantinha discórdias importantes com sua mãe. Não foi, pois, por acaso que tenha tentado a todo o custo apoderar-se do governo do Condado.
As tropas do infante e dos barões portucalenses enfrentaram as de Fernão Peres de Trava e dos seus partidários portugueses e fidalgos galegos no dia de São João Baptista do já referido ano de 1128.
Como a vitória foi para D. Afonso Henriques, o cronista do mosteiro de Santa Cruz aproveitou a coincidência da data da batalha com a festa religiosa para exaltar o acontecimento, conseguindo colocá-lo ao nível das intervenções divinas. São João tinha sido o anunciador de Jesus Cristo. Como a batalha se deu na data em que se venera esse santo e a vitória ter sorrido a D. Afonso Henriques, tal facto constitui, segundo aquele cronista, a verdadeira prova de que o infante era, também ele, o anunciador do aparecimento de um novo reinado.
A Batalha de São Mamede foi absolutamente decisiva para a história da nossa nação. Basta lembrar que com ela mudaram os detentores do poder no condado, com expulsão de D. Teresa, e mudaram ainda as relações das forças sociais para com o próprio poder. Os barões portucalenses, ao escolherem D. Afonso Henriques para seu chefe, recusavam-se a aceitar a política da alta nobreza galega e do arcebispo de Compostela. Desta forma, estavam basicamente a inviabilizar um reino que englobasse Portugal e a Galiza. Desencadearam então uma forte corrente independentista capaz de subsistir por si só e capaz de resistir a todas as tentativas posteriores de reabsorção.
A localização exacta do campo de batalha é ainda nos dias de hoje pouco precisa. Sabe-se, no entanto, e isso é ponto assente, que a refrega se deu perto de Guimarães, o que releva para a evocação daquela cidade como o berço de Portugal.
 
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 12:09
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

O Adeus à Primavera nas Palavras de David Mourão-Ferreira

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
 
No dia 16 de Junho de 1996, fez ontem treze anos, morreu, em Lisboa, o escritor, poeta e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, David Mourão-Ferreira.
David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927. Formou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido mais tarde professor assistente da mesma Faculdade, cargo que abandonou em 1963.
No início da sua carreira poética encontramo-lo ligado ao grupo da Távola Redonda, do qual foi fundador e director e no qual se tornam particularmente proeminentes os seus méritos de crítico e, sobretudo, de poeta.
Segundo a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica Antígona, de Natália Correia, foi precisamente nesta fase que David Mourão-Ferreira, utilizando um pecúlio mais restrito de vivências, cujo enriquecimento progressivo veio marcando a sua ascensão e o integrou na constelação dos mais escolhidos poetas da modernidade, revelou a sua aguda intuição formal, um senso físico da poesia que imprimia aos seus versos uma peculiar maturidade técnica.
Em 1962, com a obra “In Memoriam Memoriae”, David Mourão-Ferreira atinge o apogeu da sua ciência poética, como que esgotando os seus recursos e afirmando-se definitivamente como uma referência incontornável na literatura portuguesa.
Homenageamo-lo, hoje, quando passam treze anos sobre a sua morte, recordando um dos seus mais belos poemas. Chama-se “Primavera” e é, em nosso entender, uma deliciosa viagem entre a magia e o encanto daquela estação do ano e o lado mais fúnebre da solidão e da perda. É este contraste que exploramos hoje, a meia dúzia de dias de nos despedirmos dela, da Primavera, que David Mourão-Ferreira parece querer esquecer a todo o custo. Recordemos, pois. Lembremo-nos, então. Dela, da Primavera. E dele, deste grande senhor da poesia portuguesa.
 
Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia
 
E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi
 
Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver
 
Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia
 
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 09:57
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

A Propósito do Dia 10 de Junho

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
 
A propósito do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, evocamos hoje Luís Vaz de Camões. Filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá e Macedo, Camões nasceu em lugar incerto, provavelmente Lisboa, em 1524 ou 1525.
É possível que tenha frequentado a Universidade de Coimbra, embora os registos académicos daquela Instituição não lhe façam qualquer referência. Em abono dessa hipótese joga o facto de D. Bento de Camões, parente próximo do poeta, ter sido prior do Mosteiro de Santa Cruz e chanceler da Universidade. Por outro lado na canção IV, Luís Vaz de Camões faz uma referência explícita a Coimbra, quando diz:
 
“Vão as serenas águas
Do Mondego descendo
Mansamente, que até o mar não param;
Por onde minhas mágoas,
Pouco e pouco crescendo,
Pera nunca acabar se começaram.”
 
Durante a juventude, em Lisboa, conviveu com membros da fidalguia cortesã, e, por volta de 1550, serviu como soldado em Ceuta, no norte de África, onde perdeu um olho em combate.
A sua obra-prima, “Os Lusíadas”, foi publicada em 1572. Como retribuição pelos serviços prestados na Índia e pela redacção da epopeia nacional, D. Sebastião atribuiu-lhe uma tença anual de 15.000 reis. Faleceu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580.
Em vida, publicou apenas, além d' Os Lusíadas, três poemas líricos: um, acompanhando um livro de Garcia de Orta. Os restantes, incluídos na obra de Pêro de Magalhães Gândavo, “História da Província de SantaCruz”. O restante da sua produção poética foi já editada a título póstumo, a partir de 1595, tendo sido recolhida de cancioneiros manuscritos.
            Recordamos aqui “Glosa a mote alheio”, um dos imortais poemas de Camões, um verdadeiro hino à natureza, uma justa homenagem à vida.
 
"Vejo-a na alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo."
 
Se só no ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
"Vejo-a na alma pintada."
 
O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
"Quando me pede o desejo."
 
Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
"O natural que não vejo."
 
Até para a semana. Directo à Questão.
 
publicado por Ricardo às 09:43
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Sobre o Fenómeno do Absentismo nas Organizações

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na União Europeia, o absentismo, devido a incapacidade para o trabalho por doença, acidente ou lesão, tem um custo total estimado entre 1.5% e 4% do PIB, conforme os Estados-membros. Estima-se que 50% a 60% do absentismo nas empresas e instituições da União Europeia é provocado por problemas relacionados com stress. As autoridades comunitárias consideram que a situação se está a agravar de dia para dia, afectando cerca de 40 milhões de trabalhadores.Em Portugal, os custos directos e indirectos do absentismo rondarão os 3,6% do Produto Interno Bruto, o que, em termos absolutos, é igual ou superior ao orçamento do Serviço Nacional de Saúde. Meio milhão de portugueses não trabalham diariamente por faltas injustificadas ou baixas, ao mesmo tempo que cerca de 500 mil procuram emprego. Essas faltas custam ao país cerca de 3,7 mil milhões de euros por ano.
O absentismo causa, portanto, uma duplicação de custos nas empresas e 80% do mesmo seria redutível se as condições de trabalho e socioeconómicas dos trabalhadores fossem melhoradas. São dados que constam de um estudo realizado em 2003 por Maria Abreu Guimarães, da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão do Instituto Politécnico do Porto, no âmbito da tese de mestrado “Custos ocultos do absentismo: Um estudo de caso”.
Então que fenómeno é este que tão grande e significativo impacto provoca na produtividade do nosso país?
Definir absentismo não é uma tarefa consensual, dada a difícil delimitação do campo de abrangência do conceito. Não espanta que autores como Miguez se refiram ao absentismo, tal como tem sido abordado, enquanto “um objecto de estudo imaginário”.
Adoptando a definição de absentismo enquanto “o conjunto das ausências intencionais e de carácter repetitivo do trabalhador”, o principal problema reside na dificuldade em distinguir “absentismo voluntário” de “absentismo involuntário”. Continua a não existir uma fronteira precisa entre os dois, já que as ausências voluntárias, na sua maioria, camuflam-se em ausências involuntárias, nomeadamente com doenças, apresentando justificações fraudulentas.
A delimitação com precisão das causas do absentismo tem sido uma tarefa ingrata para os investigadores da área, devido à sua complexidade. No entanto, qualquer que seja a perspectiva de análise deste fenómeno, existem alguns factores que podem constituir a base para o absentismo. Eles podem ser de ordem individual – nestas situações o absentismo resulta de uma continuada discrepância entre as exigências do posto de trabalho e a capacidade de resposta do trabalhador. Podem ser ainda de ordem organizacional – faltar ou não ao trabalho é uma decisão que ninguém toma de ânimo leve; em todo o caso, depende sobretudo da percepção da barreira do absentismo, representada por uma série de custos e benefícios para o trabalhador. Finalmente, podem existir causas de ordem social – a decisão de faltar e, sobretudo, de voltar ao trabalho depois de ausência, depende da percepção daquela que é a barreira da reintegração, o “quando é que eu me sinto capaz de regressar em pleno”.
Os efeitos do absentismo podem ser positivos ou negativos e também estes se podem fazer sentir a três níveis: a nível individual (um dos benefícios pode ser, por exemplo, a redução do stress; mas em contrapartida, pode prejudicar a imagem do trabalhador em relação a colegas e chefias), a nível organizacional (se, por um lado, o absentismo pode causar diminuição das tensões e manutenção de um nível aceitável de motivação, por outro, pode originar baixas de produtividade e degradação das relações no interior da organização) ou a nível social (uma vez que, se é verdade que o comportamento absentista permite que se mantenha um certo nível de saúde pública, também implica o aumento das despesas públicas, pois sendo as ausências de longa duração aquelas mais nefastas para a comunidade, é ela que suporta uma parte significativa dos seus custos financeiros nestes casos).
Em tempo de crise economico-financeira e em que tanto se fala do stress dos dias, vale a pena que trabalhadores e empregadores pensem seriamente no verdadeiro peso do absentismo na nossa sociedade.
 
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 15:04
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