Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Algumas Reflexões Sobre o Atraso Competitivo Português (I)

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.

 

O atraso competitivo de Portugal é uma expressão que nos habituámos a ouvir e ler nos últimos anos e que assume uma conotação de um certo fatalismo à portuguesa, como se este nosso fado estivesse escrito nas estrelas por um Deus maior. Do mesmo modo, proliferam as receitas milagrosas que, qual panaceia para todos os males, vários cronistas se apressam a fornecer através dos diversos media, prometendo um crescimento “rápido e sustentado”.

Nas palavras de Landes, “a análise económica acalenta a ilusão de que uma boa razão deve ser suficiente, mas as determinantes estão interligadas. As explicações monocausais não funcionarão”. A verdade é que também os factores subjacentes ao atraso de competitividade nacional são múltiplos e com diferentes ponderações. Com efeito, variáveis geográficas, históricas, sociológicas, antropológicas, psicológicas, culturais e até variáveis não racionalizáveis como a sorte interagem e confluem na realidade que conhecemos.

Nas nossas três próximas reflexões analisamos o atraso competitivo português sob uma perspectiva histórica.

A competitividade da economia nacional pode ser dividida em vários períodos, temporalmente bem definidos, de acordo com acontecimentos exteriores e intrínsecos à dinâmica no seio da sociedade portuguesa, cada qual com especificidades próprias.

O período após a 2ª guerra mundial é marcado por uma aposta numa industrialização baseado na substituição das importações. Falamos aqui de um certo proteccionismo, Portugal orgulhosamente só.

O período de 1960 até 1973 fica marcado por um forte crescimento chegando a taxa média de crescimento a 6,9%. Este crescimento foi conseguido muito por culpa da alteração do peso relativo dos sectores de actividade, de equilíbrio macroeconómico e da abertura da economia nacional ao exterior.

Neste período a agricultura perdeu mais de meio milhão de trabalhadores, tendo a indústria recuperado não só no seu peso relativo no que diz respeito ao PIB como conheceu uma maior diversificação, aumentou a sua produtividade e sentiu uma reorganização com vista à exportação. Nos serviços houve lugar a uma alteração na sua composição, com a modernização dos serviços financeiros, de transportes ou nas comunicações.

Os equilíbrios macroeconómicos conseguidos permitiram manter baixa a inflação (cerca de 5%), com um desemprego moderado e finanças públicas equilibradas mesmo com um aumento do lado da despesa em virtude do financiamento da guerra colonial.

A abertura da economia ao exterior permitiu a intensificação de laços de interdependência com as restantes economias europeias. Este movimento de abertura permitiu atrair capitais quer através do Investimento Directo Estrangeiro resultante de um reforço na industrialização para exportação, quer através das Remessas de Emigrantes iniciada na década de 60.

A acumulação de reservas em ouro e divisas permitiu evitar défices orçamentais e proporcionou uma reduzida variação na taxa de juro, bem como a manutenção de uma taxa de câmbio estável. Esta estratégia cambial e orçamental visava introduzir estabilidade às crescentes trocas comerciais no seio da Europa. É evidente que foram necessários sacrifícios nas despesas de saúde, educação ou segurança social, mas Portugal apresentava uma situação sem problemas ao nível do desemprego ou do saldo da Balança de Pagamentos.

A nível interno, o governo de então apresentou Planos de Fomento que promoviam o aumento de investimentos em infra-estruturas, iniciativas estatais na criação de novas unidades produtivas ou benefícios fiscais e de crédito a novos projectos de índole industrial.

Prosseguimos na próxima semana a nossa reflexão sobre a história da competitividade lusa.

           

 

Até para a semana. Directo à Questão.

 

publicado por Ricardo às 14:02
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