Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Sobre as Decisões de Carreira (I)

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.

Nas nossas duas próximas reflexões tentaremos perceber o que é que valorizam os alunos no momento da escolha de carreira. Afinal de contas, falamos do momento de decisão por um curso, por uma ocupação, por um destino de vida.

Com o aproximar do final do ano lectivo, milhares de alunos um pouco por todo o país vêem avizinhar, com maior ou menor ansiedade, o momento das grandes decisões de carreira. Em 2007, foram abertas mais de 46 mil vagas no ensino superior público. Cerca de 85% dos 40 mil candidatos foram colocados na primeira fase do concurso de acesso. Mas, afinal, o que é que norteia a decisão dos alunos no momento da escolha por este ou aquele curso, por esta ou aquela universidade ou instituto? Porque é que ouvimos sistematicamente expressões como “escolhi este curso porque me apeteceu” ou “vou para aquela universidade porque os meus amigos vão todos para lá” ou ainda “fui para aquele curso porque não consegui entrar naquele de que realmente gostava”?

Entrar para a universidade continua a ser sinónimo de aquisição de um certo estatuto social, apesar de ser cada vez menos uma garantia de sucesso profissional. Pese embora esta desvalorização dos títulos académicos no mercado de trabalho, a obtenção de um diploma continua a constituir um objectivo primordial para um crescente número de alunos. Assim, o diploma tem cada vez mais um valor cultural e menos um valor profissional. Chega a ser impressionante como muitos alunos pretendem ingressar no Ensino Superior apenas pelo estatuto auferido, na maior parte das vezes resultado, inclusive, de enormes pressões sociais (sobretudo, familiares) para o prosseguimento de estudos. Esta situação toma contornos particularmente relevantes se pensarmos como existe, em Portugal, uma enorme carência de profissionais qualificados de nível intermédio e que, para estes cursos, concorrem sobretudo alunos que não encontram vias de formação alternativas.

Mais grave ainda é a ausência completa, em muitos dos casos, de quaisquer motivos válidos para a escolha deste ou daquele curso, sobretudo quando se tratam de cursos completamente dissonantes com interesses, valores e expectativas dos alunos. O sistema montado para o processo de ingresso no Ensino Superior começa por partir, quanto a nós erradamente, do pressuposto de que os alunos possuem um auto-conhecimento e um nível de desenvolvimento de carreira que lhes permita uma escolha consciente, ou seja, parte do pressuposto errado de que os alunos possuem uma maturidade de carreira capaz de uma decisão racional e ponderada.

Contudo, o que podemos facilmente constatar é que a maior parte das decisões de carreira continuam a ser pautadas pelo acaso, pela arbitrariedade e pelo imediatismo. Muitas das vezes, os alunos escolhem uma profissão, não porque se imaginem e projectem no futuro a desempenhá-la, mas porque o vizinho do lado também assim fez, ou porque a formação na área não tem aquela disciplina considerada difícil. Por muito que se tente desconstruir todo um conjunto de ideias baseadas em informação parcelar e enviesada, muitas das decisões dos nossos alunos continuarão a fundar-se na comparação social com os colegas e na influência dos seus modelos de referência.

Mais de dois terços dos alunos matriculados no 12.º ano frequentam a Área de Ciências e Tecnologias. Destes, existe uma quantidade exorbitante de alunos que pretende seguir um curso superior na área das ciências da saúde. Cursos como os de Medicina, Ciências Farmacêuticas, Psicologia, Bioquímica ou Tecnologias da Saúde (por exemplo, Fisioterapia, Radiologia, Análises Clínicas, entre outros) figuram, ano após ano, nos primeiros lugares do top de preferências dos alunos, possuindo, por isso, elevadas médias de acesso. Parece-me que a existência de um tão elevado número de alunos “interessados” (e sublinhe-se o termo “interesse”) em enveredar por este tipo de cursos constitui uma probabilidade irrealista. É impossível que os interesses de todos os alunos que procuram estes cursos superiores convirjam no mesmo sentido; é impossível que haja, por “vocação” (mais um termo que sublinho, “vocação”), tantos médicos ou psicólogos, por exemplo.

Na próxima semana, proponho que analisemos os dois termos que acabei de sublinhar. Interesse e vocação. O que é que os distingue? Devemos ou não valorizar os interesses de quem decide? Devemos ou não continuar a falar em vocação?

Até lá. Directo à Questão.

publicado por Ricardo às 17:33
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