Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

O Adeus à Primavera nas Palavras de David Mourão-Ferreira

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
 
No dia 16 de Junho de 1996, fez ontem treze anos, morreu, em Lisboa, o escritor, poeta e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, David Mourão-Ferreira.
David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927. Formou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido mais tarde professor assistente da mesma Faculdade, cargo que abandonou em 1963.
No início da sua carreira poética encontramo-lo ligado ao grupo da Távola Redonda, do qual foi fundador e director e no qual se tornam particularmente proeminentes os seus méritos de crítico e, sobretudo, de poeta.
Segundo a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica Antígona, de Natália Correia, foi precisamente nesta fase que David Mourão-Ferreira, utilizando um pecúlio mais restrito de vivências, cujo enriquecimento progressivo veio marcando a sua ascensão e o integrou na constelação dos mais escolhidos poetas da modernidade, revelou a sua aguda intuição formal, um senso físico da poesia que imprimia aos seus versos uma peculiar maturidade técnica.
Em 1962, com a obra “In Memoriam Memoriae”, David Mourão-Ferreira atinge o apogeu da sua ciência poética, como que esgotando os seus recursos e afirmando-se definitivamente como uma referência incontornável na literatura portuguesa.
Homenageamo-lo, hoje, quando passam treze anos sobre a sua morte, recordando um dos seus mais belos poemas. Chama-se “Primavera” e é, em nosso entender, uma deliciosa viagem entre a magia e o encanto daquela estação do ano e o lado mais fúnebre da solidão e da perda. É este contraste que exploramos hoje, a meia dúzia de dias de nos despedirmos dela, da Primavera, que David Mourão-Ferreira parece querer esquecer a todo o custo. Recordemos, pois. Lembremo-nos, então. Dela, da Primavera. E dele, deste grande senhor da poesia portuguesa.
 
Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia
 
E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi
 
Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver
 
Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia
 
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 09:57
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