Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Entre o Normal e o Patológico (II): A Depressão Enquanto Emoção Inibitória

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na nossa última reflexão tentámos perceber como funciona a ansiedade. Procurámos deixar bem claro que a resposta ansiosa pode ser considerada adaptativa e funcional, uma vez que mobiliza o indivíduo para a acção. Foi a primeira de um conjunto de reflexões em que tentaremos perceber melhor algumas das perturbações psicológicas mais comuns e com as quais somos bombardeados diariamente nos vários órgãos de comunicação social. Ansiedade, depressão, anorexia, bulimia: são expressões que nos habituámos a ouvir no senso comum e que representam complicações do foro psíquico mais ou menos complexas. Propomo-nos aqui a analisar algumas destas doenças de uma forma o mais pedagógica possível, tentando perceber as suas principais causas e consequências e deixando algumas recomendações para todos os que com elas convivem com maior ou menor proximidade.
Hoje focaremos a nossa análise numa das doenças ditas “da moda”. Quem é que já não recorreu a expressões como “hoje estou deprimido” ou “esta vida é deprimente”? A depressão é o distúrbio psicológico com a maior taxa de prevalência em Portugal. Vários estudos recentes apontam para uma taxa na ordem dos 10%, ou seja, estes números indicam que 1 em cada 10 portugueses sofre de depressão. Serão estes números realistas? O que é que causa depressão? Que tipo de sintomas estão associados ao estado depressivo?
Para melhor compreendermos esta doença, importa começar por perceber a diferença entre ansiedade e depressão. Na última semana, vimos que a ansiedade possui uma componente mobilizadora, ou seja, o ansioso, perante uma situação de ameaça, procura uma resolução do problema. Ao invés, o deprimido, perante um problema, desiste imediatamente, denotando um sentimento de culpa ou falha. Daqui ressalta que a depressão é uma emoção inibitória. Inibição, no sentido em que o deprimido, face a uma situação de perda, desiste de lutar por aquilo que perdeu.
É precisamente aqui que reside também a diferença entre a depressão e uma outra emoção facilmente associada a ela, a tristeza. A tristeza constitui uma resposta emocional normal e transitória a acontecimentos de vida negativos. Um indivíduo triste sabe o que perdeu, chora o que perdeu, mas mobiliza os seus esforços para recuperar o que perdeu. Em contrapartida, um indivíduo deprimido é alguém que desistiu de acreditar no futuro e na possibilidade de atingir os seus objectivos, ou acredita que as suas tentativas só o vão levar ao fracasso e à rejeição. Ao contrário da tristeza, que é uma emoção passageira e funcional, a depressão é uma doença, com critérios de diagnóstico objectivos. Muitas depressões tomam inclusive o cenário de quadros clínicos complexos e heterogéneos, que agrupam um conjunto de sintomas em diversas áreas de funcionamento do indivíduo.
            A depressão caracteriza-se, pois, por uma visão negativa do próprio indivíduo, do mundo e do futuro, associada a uma perda de prazer ou interesse em todas ou quase todas as actividades. Os principais sintomas associados à depressão incluem a tristeza, a irritabilidade, a angústia, o choro fácil, a melancolia, a perda de peso associada a uma diminuição do apetite, a insónia ou hipersónia, a agitação ou inibição psicomotora, a fadiga ou perda de energia, o sentimento de desvalorização ou culpa excessiva e a diminuição da capacidade de atenção-concentração.
Não podemos, contudo, confundir a ocorrência de um episódio depressivo com o diagnóstico de uma doença grave como a depressão. O surgimento de alguns destes sintomas é considerado normal perante um episódio de perda ou culpa. Apenas uma complexa constelação de sintomas configura aquilo que podemos denominar como a passagem do normal para o patológico. No entanto, como referimos na nossa última reflexão, este limiar é bastante ténue e define-se, grosso modo, como o momento em que os sintomas passam a interferir disfuncionalmente no bem-estar do indivíduo, modificando o seu quotidiano. Esta transição só ocorre em quadros clínicos complexos, pelo que considero excessivo afirmar que 1 em cada 10 portugueses sofre de depressão. Diria mais que este número resulta de diagnósticos displicentes ou, pura e simplesmente, de uma sobreavaliação de sintomas.
Embora todos tenhamos dias menos maus, não somos todos doentes. E somos tão menos doentes quanto melhor e mais rica for a nossa rede relacional de afectos. É nos amigos, na família, na escola, no trabalho, enfim, naqueles com quem nos relacionamos diariamente, que encontramos o suporte que nos impede de cair na esfera do patológico. Não nos deixemos enredar por um cenário negro e procuremos valorizar aquilo que de bom existe em nós, no mundo e no futuro. O equilíbrio é sempre possível.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 19:14
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