Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Entre o Normal e o Patológico (III): Os Distúrbios Alimentares e o Prazer do Controlo

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Continuamos hoje a reflectir sobre algumas das perturbações psicológicas mais comuns e com as quais somos bombardeados diariamente nos vários órgãos de comunicação social. Ansiedade, depressão, anorexia, bulimia: são expressões que nos habituámos a ouvir no senso comum e que representam complicações do foro psíquico mais ou menos complexas. Temos tentado analisar algumas destas doenças de uma forma o mais pedagógica possível, tentando perceber as suas principais causas e consequências e deixando algumas recomendações para todos os que com elas convivem com maior ou menor proximidade.
Depois da ansiedade e da depressão, focaremos hoje a nossa análise nos distúrbios alimentares.
A etiologia dos distúrbios alimentares é multideterminada, resultando de uma complexa interacção entre factores psicológicos, biológicos, familiares e socioculturais. Isoladamente, nenhum potencial factor etiológico é, per se, suficiente para explicar o aparecimento, desenvolvimento e manutenção de um distúrbio alimentar ou a variação entre os sujeitos com este tipo de condição. Assim, é necessário ter em conta a interacção entre os próprios factores e ainda a interacção entre eles e o processo desenvolvimental do sujeito.
Dados estatísticos actuais que nos chegam dos Estados Unidos da América mostram a importância que deve ser atribuída aos factores socioculturais na predisposição dos Distúrbios Alimentares. Segundo estudos recentes, 80% das jovens americanas encontram-se insatisfeitas com a sua aparência física, 42% querem ser mais magras e 82% têm medo de engordar. Os americanos gastam ainda, por ano, mais de 10 biliões de dólares em dietas ou produtos relacionados. 51% das raparigas americanas afirmam sentirem-se melhor consigo próprias quando estão a fazer uma dieta.
Existe claramente na sociedade ocidental um padrão social de prescrição de magreza enquanto ideal de beleza. Deste modo, a magreza aparece como sinónimo de beleza, de controlo e sucesso. No pólo oposto, não magreza acaba por ser sinónimo de desleixo e de falta de controlo. Este papel central que a beleza adquire no estereótipo de feminilidade conduz a várias crenças erróneas, de que são exemplos a ideia de que o sujeito só não é magro se não quiser, sendo possível alcançar o controlo pessoal com facilidade; ou ainda o estereótipo de que é mais feliz quem é magro (ser atraente é sinónimo de felicidade, de inteligência, de sociabilidade e de saúde). De resto, os estudos recentes vêm vindo a provar que a magreza constitui um sinal de saúde apenas no que concerne aos homens e somente a partir dos 50/60 anos de idade. Na mulher, parece, segundo dizem os especialistas, não existir qualquer relação entre magreza e saúde.
O ideal social de beleza varia de época para época. Contudo, nas últimas quatro décadas, o ideal de beleza para a mulher transformou-se num corpo progressiva e irrealisticamente mais magro. Autores norte-americanos verificaram, num interessante estudo, que a evolução dos pesos médios das concorrentes ao concurso de Miss América e Miss Playboy do Mês ao longo dos últimos vinte anos foi no sentido de pesos progressivamente mais baixos e formas mais tubulares. Este facto constitui uma verdadeira antítese, uma vez que o peso médio das mulheres da população geral com menos de 30 anos tem vindo a aumentar nos últimos anos, na mesma proporção que o peso das “coelhinhas” diminuiu.
As concorrentes dos concursos de beleza e as modelos que enchem as páginas das revistas de moda constituem verdadeiros modelos (na acepção psicológica do termo) para as jovens, acentuando ainda mais o ideal contemporâneo de beleza enquanto sinónimo de magreza. A moda constitui um importante veículo de influência social, encontrando-se constantemente associada à elegância e ao charme que os seus protagonistas preconizam.
Os media, com o poder que possuem na sociedade actual, constituem decisivos veículos de afirmação do estereótipo de beleza feminino, os quais bombardeiam autenticamente as jovens com mensagens aliciantes. O enorme incremento das técnicas publicitárias facilita uma ampla divulgação das mensagens subjacentes que servem a chamada “indústria do emagrecimento”. A título meramente exemplificativo, quem é que não quer ter um “corpo Danone”? Contudo, a verdade é que poucas mulheres têm possibilidade de ter um corpo como os modelos de beleza com que são confrontadas diariamente nos media.
A influência do grupo de amigos pode também constituir um factor de risco ou protecção para os distúrbios alimentares. A atitude da mulher em relação ao peso e dietas é frequentemente influenciada, por um processo de modelamento, pelo grau em que as amigas e amigos valorizam a magreza. É muito devido à comparação social com aqueles que são tidos como modelos pelo sujeito, que se tendem a desenvolver as crenças que estão na base dos distúrbios alimentares.
Até para a semana. Directo à questão.
publicado por Ricardo às 09:30
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