Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Os Dias do Fim de Radovan Karadzic ou um Exercício sobre a Natureza Humana

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
O antigo líder político dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic, detido a 21 de Julho na Sérvia acusado de genocídio, encontra-se actualmente a aguardar julgamento na prisão do Tribunal Penal Internacional de Haia. Karadzic é acusado de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, nomeadamente devido ao massacre de cerca de 8.000 muçulmanos em Julho de 1995 em Srebrenica, no este da Bósnia.
Grande responsável pelas sangrentas mortes da Guerra dos Balcãs, o antigo líder político viveu nos últimos 13 anos sob o nome de Dragan Dabic, um camponês e operário da construção civil, e sob a aparência de Petar Glumac, um curandeiro sérvio. Completamente transfigurado, quem era aquele homem que foi recentemente detido pelas autoridades sérvias? Seria o simpático curandeiro da aldeia que salvou da morte dezenas de enfermos ou o assustador carniceiro acusado da morte de milhares de muçulmanos? Um anjo ou um monstro? Existirá dentro de cada um de nós um ser violento capaz das maiores atrocidades? Será que estamos perante um homem de fundo bom?
Afinal de contas, a detenção de Radovan Karadzic provocou uma onda de protestos e manifestações dos seus seguidores, em pleno coração de Belgrado. Afinal de contas, os seus defensores dizem que ele não é mais culpado do que qualquer outro numa guerra em tempo de liderança política. Afinal de contas, a sua fuga às autoridades durante mais de uma década fez dele um herói internacional entre os sérvios da Bósnia. Em 21 de Fevereiro de 2008, no momento da independência da do Kosovo, dezenas de retratos de Karadzic invadiram Belgrado durante exibições de protesto. Afinal de contas, estamos perante um político com formação de base em Psiquiatria na Universidade de Sarajevo e um reconhecido autor de poesia, influenciado pelo escritor sérvio Dobrica Cosic.
Mas será que poderemos mesmo desculpabilizar Radovan Karadzic?
No Le Monde”, em editorial, escreveu-se há tempos: « Radovan Karadzic encarnou o nacionalismo sérvio mais puro, mais duro, mais louco. Karadzic vivia no seu universo de poesia épica, fascinado pelo que chamava a sua "raça de guerreiros", rodeado de papas ortodoxos e de ideólogos parecendo não ter compreendido muito que a Europa tinha evoluído desde o fim da dominação otomana. O pior talvez para Karadzic é que ele terá sido detido não pelos Muçulmanos bósnios que quis exterminar, não pelos Ocidentais que odiava, mas por uma Sérvia prestes a sair da sua época mais demoníaca, uma Sérvia ainda muito nacionalista mas dirigida por democratas, um país prestes a reconciliar-se pouco a pouco com os seus vizinhos e a avançar para a Europa comunitária.»
De nada vale especular sobre a justeza da detenção do antigo líder sérvio. Não é possível perdoar a alguém responsável por milhares de mortes de pessoas inocentes. Não é possível perdoar a alguém que busca o extermínio de todo um povo. Não é possível perdoar a alguém que provoca tal sofrimento. Não é possível perdoar a alguém enlouquecido pelo poder e pela ambição.
Por detrás do simpático curandeiro de aldeia está o lado mais negro da existência humana. É essa existência que admite a violência como algo inato no seu ser. Mas que tem de condenar as formas extremas dessa violência, porque para qualquer característica inata existe um filtro social que impede a sua manifestação no estado mais puro. É esse filtro social que nos faz seres racionais e não meros animais que matam por puro instinto sobrevivência. Nesse filtro cabem, entre outros, os valores e normas sociais, as noções de cidadania e vida em comunidade, os imperativos de desenvolvimento e progresso humanos.
A violência é inata à natureza humana. A necessidade de poder é intemporal. Mas são sempre os valores os principais causadores das guerras. Sejam eles políticos, religiosos ou ideológicos.
Essa comunidade que resulta de um processo de desenvolvimento social e humano – com falhas, é certo – vai fzer Radovan Karadzic responder pelos seus crimes. Não é o modelo perfeito. Nunca será possível unificar valores e crenças à escala universal. Mas a humanidade precisa de evoluir. E, enquanto cidadãos, todos somos responsáveis por esse desenvolvimento.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 09:58
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