Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Sobre os Professores no Contexto do Actual Sistema de Ensino

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.

O recente entendimento conseguido entre o Ministério da Educação e os Sindicatos que representam a classe docente sobre a tão contestada questão da avaliação de desempenho dos professores constitui um marco histórico nas sempre conturbadas relações entre Governo e Associações Sindicais. No entanto, mais importante do que tentar perceber como andam as relações entre Sindicatos e Ministério, importa assinalar a relevância dos ajustes efectuados ao processo de avaliação de professores. Todas as partes parecem estar de acordo num ponto essencial: é importante proceder a uma avaliação justa e rigorosa do trabalho dos docentes. Os pontos de divergência são outros e conduziram a uma histórica marcha de protesto pelas ruas de Lisboa.

Um dos principais factores de discordância é a questão dos critérios de avaliação. Muito se tem discutido sobre a participação dos encarregados de educação no processo ou sobre a importância dos resultados escolares dos alunos na avaliação do desempenho de quem os ensina. O que é indiscutível é que um sistema de avaliação eficiente e rigoroso não existe sem critérios objectivos e deve resultar de métodos participados que envolvam o maior número de intervenientes possível.

Mais delicada é a questão dos prazos em que o processo deve decorrer. E é aqui que nos parece estar o mais decisivo ganho deste entendimento entre Sindicatos e Ministério. É simplesmente inconcebível introduzir um tão complexo sistema a meio de um ano lectivo. Por isso, era imperiosa a flexibilização de prazos sem prejuízo da continuidade do processo, já em andamento na maior parte das escolas do país. E tal foi conseguido, uma vez que os professores que dependem de uma avaliação este ano lectivo, designadamente os professores contratados, vão ver mesmo o seu desempenho avaliado, num processo mais simplificado.

Ora então temos que… O Ministério sai a ganhar porque mantém o processo de pé, ajustando apenas os timings de aplicação das regras. Os Sindicatos saem a ganhar porque, quer o Governo queira admitir ou não, o que é certo é que estamos perante um recuo. Assim sendo, não podíamos estar todos mais contentes. Ou será que podíamos?

Os professores continuam a ser uma das classes profissionais mais desmotivadas, que tantas vezes luta contra a maré como se acomoda na mediocridade, com efeitos devastadores em todo o sistema educativo. No nosso modo de ver, esta desmotivação resulta de uma heterogeneidade qualitativa e não de factores remuneratórios.

Se não vejamos: Os salários dos professores portugueses ponderados ao custo de vida estão no topo da tabela dos países da OCDE. O sistema de progressões foi ao longo dos anos, na prática, absolutamente automático, com consequências financeiras notórias. Dos cerca de 6 mil milhões de euros orçamentados anualmente para o sector da educação em Portugal, perto de 82% correspondem a despesas com o pessoal e apenas 2% a investimentos.

Contudo, como escrevia recentemente um professor numa das colunas de opinião do jornal Público, “os professores encontram-se desmotivados e tristes, pois são «pau para toda a colher», exigindo-lhes tudo, mas mesmo tudo”. O “professor caracol”, como já lhe chamaram, que anda de terra em terra, sem conseguir um lugar de efectividade numa escola, ao qual se encontra reservado um futuro incerto, pode ser uma das justificações para o que se passa actualmente com o corpo docente em Portugal.

Se a isso juntarmos o completo alheamento de muitos pais e encarregados de educação relativamente ao percurso escolar dos filhos, delegando nos professores toda a responsabilidade pela educação dos alunos e culpabilizando-os pelas situações de insucesso ou inadaptação, então facilmente percebemos porque é que a classe docente, com o seu tão importante papel civilizador, se encontra mergulhada num limbo, o qual prejudica gravemente o normal funcionamento de todo um sistema de ensino, já de si débil e frágil.

Não esqueçamos, pois, as palavras de Fernando Savater, São os professores que estão incumbidos de “lutar contra a fatalidade, contra o destino. A fatalidade de que o filho de um pobre seja sempre pobre, de que o filho de uma pessoa ignorante seja sempre ignorante e de que o filho de um fanático seja sempre um fanático. Para evitar essas fatalidades é que precisamos da educação”.

Até para a semana. Directo à Questão.

publicado por Ricardo às 15:48
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