Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

O Estado da Educação em Portugal (I): Algumas Certezas e Muitas Interrogações

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
É líquido que o investimento do país em educação nos últimos anos não teve tradução em melhorias significativas no sistema, quer ao nível da prevenção do abandono escolar, quer dos resultados em saberes nucleares. Nos últimos 10 anos, os gastos públicos na educação cresceram de modo singular. Segundo dados daquele Ministério, os gastos anuais em educação ascendem a mais de 6 mil milhões de euros, perfazendo 4.1% do PIB nacional.
Com efeito, tendo em conta os dados do Eurostat para 2002, a taxa de pessoas dos 24 aos 65 anos que completaram, pelo menos, o ensino secundário era de 64.2% para a média dos países da OCDE e em Portugal de uns baixos 20.6%. O ouvinte mais informado será imediatamente levado a notar que estes dados são expectáveis, tendo em conta os atrasos históricos de Portugal nesta matéria e a faixa etária considerada. Todavia, infelizmente, o panorama actual não é animador. No intervalo de idades entre 20 e 24 anos, a percentagem de alunos com baixo nível de escolaridade e que não frequentam o ensino ronda os 50%.
O Estudo PISA (Programme for International Student Assessment) foi lançado pela OCDE, em 1997. Os resultados obtidos permitem monitorizar, de uma forma regular, os resultados dos sistemas educativos em termos do desempenho dos alunos, no contexto de um enquadramento conceptual aceite internacionalmente. Segundo os dados daquele Estudo, os resultados dos alunos em ciências, matemática e domínio da língua não são satisfatórios. De facto, em problemas matemáticos simples, os alunos portugueses pontuam abaixo da média de 29 países da OCDE, com diferenças estatisticamente significativas, apenas superando Itália, Grécia, Turquia e México.
A conceptualização do problema da educação em Portugal é, pois, de extrema complexidade. O contexto educativo encontra-se carregado de paradoxos e vicissitudes que minam o próprio funcionamento das estruturas e dos actores que constroem a realidade escolar.
Apesar dos recentes esforços governativos, o ensino continua demasiado estandardizado, sobretudo até ao 9.º ano. Continuam a faltar verdadeiras alternativas profissionalizantes de aprendizagem, não apenas direccionadas para alunos de risco. Neste sistema, continua a ser difícil conseguir que muitos jovens prossigam a sua carreira numa escola que não corresponde às suas características idiossincráticas. Um sistema de ensino que valoriza quase exclusivamente o raciocínio lógico-abstracto e numérico e não tem em conta outras aptidões pessoais, conduz facilmente ao desinteresse dos alunos pelas matérias escolares. Deste modo, é particularmente importante desenvolver currículos vocacionais profissionalizantes, orientados para os desafios do futuro, que complementem o actual sistema, elevando, depois, a escolaridade obrigatória para o 12.º ano.
Na transição do ensino secundário para o ensino superior também identificamos um factor de relevo na diminuição da competitividade do país. A quantidade e distribuição dos cursos superiores é perfeitamente injustificável perante os desafios actuais. Citando o Parecer de Iniciativa sobre a Estratégia de Lisboa emanado do Conselho Económico e Social, “é, igualmente, de registar o elevado crescimento de desempregados licenciados, o que parece ser contraditório num mercado em que persistem elevadas carências de recursos humanos qualificados”. Parece, mas não é contraditório. Este facto deve-se à enorme discrepância entre a procura de cursos superiores por parte dos alunos (elevada em Ciências Sociais, Letras, Ensino) e a procura de licenciados no mercado de trabalho (elevada sobretudo em ciências e tecnologias, saúde), sendo que a oferta das escolas privilegia a primeira.
Parece-nos que a solução para este problema passa pelo aumento do grau de auto-conhecimentoda própria sociedade, obrigando as escolas superiores (ou, idealmente, entidades externas) a efectuar estudos em torno da empregabilidade, satisfação, inserção profissional e outros factores relacionados com os cursos que ministram, como se procede em muitas universidades estrangeiras, desde há longos anos. Concomitantemente, é imperioso reduzir a miscelânea de designações que actualmente existem, reduzindo a confusão, optimizando informação e recursos preciosos. A aplicação do Protocolo de Bolonha aponta nesse sentido, contudo verificamos que os verdadeiros pressupostos do Tratado de Bolonha, três anos depois da sua aplicação no nosso país, continuam muito difusos para a maioria das instituições do Ensino Superior.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 17:05
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1 comentário:
De Um fã a 7 de Outubro de 2008 às 11:00
Muito bem! Os meus parabéns, é a minha primeira vez aqui no blog e estou realmente impressionado com a qualidade e objectividade possuídas pelo Dr Ricardo... Continue com o bom trabalho.

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