Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

O Estado da Educação em Portugal (II): A Formação Profissional é Solução?

 

Ora viva. Estamos de volta. Directo à Questão.
Na nossa última reflexão, lançámos um conjunto de números em torno da Educação no nosso país, que nos conduzem a algumas certezas, mas sobretudo a muitas interrogações a propósito dos crónicos problemas associados ao Sistema de Ensino português.
A formação profissional tem sido apresentada como “a solução” para alguns destes problemas. Contudo, tenho muitas dúvidas que o tipo e qualidade da formação profissional dada pelo Estado ou por empresas de formação tenha impacto significativo na vida dos formandos, seja por via da empregabilidade, por via do incremento dos salários ou por via do ajustamento profissional. A este nível é importante avaliar e delinear uma estratégia clara com objectivos intermédios, que oriente a formação para sectores-chave, munindo os formandos de competências relevantes que os valorizem, pessoal e profissionalmente.
A formação poderá constituir-se como uma arma eficaz na luta pela competitividade se conseguir efectivamente compensar os baixos níveis educativos daqueles que se encontram activos, contribuindo ainda para o acréscimo da empregabilidade dos que se encontram em situação de exclusão do mercado de trabalho, e para a redução das diferenças de qualificação associadas aos níveis de escolaridade.
Porém, os padrões de oferta e de participação na educação e formação complementar que se encontram na maior parte dos países da OCDE, apenas contribuem, na realidade, para aumentar o fosso existente entre trabalhadores – ou seja, a formação tende, nestes países, a reforçar as diferenças de qualificação derivadas das desigualdades de escolarização.
O sistema de formação encontra-se, deste modo, sob forte pressão social. Se, por um lado, deve satisfazer em qualidade e em quantidade a procura de qualificações, antecipar as mudanças e criar mecanismos para a aprendizagem ao longo da vida, por outro lado, é solicitado para atenuar ou corrigir os efeitos negativos do funcionamento do mercado de trabalho.
A formação profissional ao longo da vida emerge como um dos mecanismos essenciais de adaptação individual às exigências colocadas pelas transformações organizacionais (tidas como inevitáveis e homogéneas, à luz de um ponto de vista “neoliberal”) e pelo determinismo tecnocrático da sociedade da informação. A formação profissional deve ser compreendida, portanto, não como um mecanismo de aquisição de conhecimentos de curto prazo, mas antes como um meio de reestruturação pessoal, no sentido de um enriquecimento das capacidades, dos comportamentos, das atitudes e dos saberes individuais, e uma forma de reconfiguração dos sistemas sociais organizados.
Existem três objectivos latos em formação, cada um deles com aspectos metodológicos específicos associados a cada uma das competências apresentadas: o Saber Saber, que pretende reforçar as competências conceptuais através da transmissão de informação; o Saber fazer, que visa o reforço das competências técnicas por via do desenvolvimento de habilidades; e o Saber Ser, orientado para o reforço das competências humanas, por intermédio da modificação atitudinal.
Embora muitas vezes a formação seja pensada como um momento de aprendizagem que se inicia e termina em sala, a verdade é que tem vindo a operar-se uma mudança significativa dos processos de aprendizagem. A formação em sala destina-se sobretudo a estimular a reflexão prática dos diversos agentes envolvidos, aparecendo a aprendizagem em contexto de trabalho como o culminar deste processo, sobretudo a nível técnico.
O conceito de aprendizagem envolve muito mais do que a implementação de meras acções de curto prazo. Enquanto a formação profissional não constituir uma verdadeira ponte entre a Escola e o Mundo do Trabalho, numa perspectiva temporal de futuro orientada para o longo prazo, nunca produzirá o impacto social desejável que se pretende nas pessoas e nas organizações.
Até para a semana. Directo à Questão.
publicado por Ricardo às 11:42
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